quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Reflexões sobre Jeremias 3

Prostituta

       Vai, prostituta. Jeremias aponta Judá como irmã prostituta de Efraim. A tribo do Sul seguindo a mesma trilha de infidelidade da tribo do Norte. "Carta de divórcio" a Efraim, em Oséias; "carta de divórcio" a Judá, em Jeremias.

      Ele mencioma, em sua pregação,  que a irmã prostituta do Norte foi despedida e dispersa na Assíria por causa de sua traição. A irmã do Sul assistiu a tudo. Mas de nada adiantou. Será despedida e dispersa na Babilônia. Idêntica geografia.

      Também seguiu após outros deuses. Era pedir demais que assim não fosse? Então o profeta cita as experiências fundantes do Êxodo. De novo, menciona Oseias e o falar de Deus ao coração.

      Deus fala ao coração. Saídos do Egito, perambularam pelo deserto, outra ironia que se, em Números, reflete ser tempo de rebeldia, Oseias denomina tempo de namoro.

     Jeremias anota que, internacionalmente, pelo que ele conhece entre as nações, os povos tinham mais reverência e respeito por seus deuses e ídolos do que Israel por seu Deus vivo. Prostituta.

     Daí a simpatia (e empatia) de Jesus por elas. Prostitutas tipificam a condição humana. Não joguem pedra na Geni.

     Muito provavelmente estamos diante de textos autênticos do poeta profeta. Tão veemente acusação não seria qualquer um que asumiria. Bendita coragem tradição corajosa, muito provavelmente do copista Baruque em escrever e retocar o rolo dessas profecias.

      Aliás, durante todo o período desse ministério, ambos correram risco constante de morte. O rei perseguia o profeta. Em Anatote, sua vila de origem, pertinho da capital Jerusalém, desterrado: seus conterrâneos não o queriam por lá.

     Vai-te, ó profeta. Agora e aqui ele se identifica com Amós, cerca de 150 anos antes dele. A irmã prostituta do Sul viu a traição da irmã prostituta do Norte. Ao invés de escandalizar-se e não agir igual, imitou-a.

     Deus desposou a irmã do Norte, que Oséias indica como aquela que o Altíssimo atrai para Si com "cordas de amor" para, uma vez traído, tentar de novo com a irmã do  Sul. Jeremias denuncia mais esta traição.

      Então, aqui Deus se identifica com os polígamos. Só que, no caso, foi traído duas vezes.

      Será que podemos dizer que Israel é a irmã do Norte, prostituta dispersa entre as nações, arrastando consigo a vergonha de sua nudez?

      E que a igreja seria a segunda irmã, a noiva de Cristo, também chamada a experimentar com Deus a relação que Israel ainda não experimentou. Mas Deus nos livre, a igreja não é prostituta. Sim e não. Santa e pecadora.

Reflexões sobre Jeremias 2

        O homem, sua época e o texto: ecos de Jeremias hoje.

       Jeremias e Deus. Ou seria Jeremias X Deus. Jeremias e aquele que se revela e se vela a Si mesmo. Velado, escondido, o drama de Deus, revelar-se ou esconder-se.

      O drama de Deus: até que ponto identiicar-se com Seu povo, até que ponto revelar-se ao homem, até que ponto ser traído pelo homem, por Seu próprio povo.

       Jeremias é intérprete dessa traição. Muito provavelmente debruçou-se sobre Oséias, o marido traído, a fim de entender o modo como e por que Deus se sentiu traído. Entender no que e o modo como Deus se sente traído.

      Jeremias é o homem que se senta à mesa de um bar para compartilhar com Deus o sentido de uma traição. Jeremias se identifica com Jesus em Sua boemia e, como mais um entre os modelos típicos do Antigo Testamento, interpreta Deus para o povo.

      Se a revelação de Deus consiste e inclui, no próprio desfecho da história da salvação, a história de um risco, precipuamente de Deus se fazer homem, há uma suma ou súmula e uma necessidade: compreender no que consiste a traição.

      O chamado de Jeremias consiste em não ser. Jeremias de autointitula na'ar, termo indefinido que significa, entre outras coisas, tenro, mancebo, criança. Deus rejeita Jeremias: solene, temor e tremor, afirma que não.

     Não diga sou na'ar. Para começar com Deus é necessário ser, de início, não. Renunciar-se significa rejeitar-se a si mesmo. Começar sendo não com Deus. Começar com Deus sendo não.

      Interessante que o pecado primordial foi ser não. No Genesis está escrito "é certo que morrerás". A serpente inverte dizendo "é certo que não morrerás". Por ironia, com Deus somente se começa não sendo, somente se começa por morte.

     Jeremias é um homem que, em seu tempo e época, começa com Deus sendo não Jeremias. Para interpretar Deus para o povo, tem de se tornar confidente do Altíssimo, a fim de entender uma traição.
   

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Reflexões sobre Jeremias 1

       Jeremias: o homem, seu tempo e o texto.

        Três vertentes para que seja definida uma visão de Deus. Na possibilidade em que se confirmem textos de incontestável autoria do profeta, qual a impressão de Deus que transparece?

         Todo o conjunto do livro a ele atribuído reserva pelo menos outros dois tipos de textos: biográficos, representado pela pessoa de seu escriba Baruque.

        Assim como sermões, muitas vezes baseados em oráculos considerados autêntica fala do profeta, que têm como referência a escola deuteronomista de redatores.

        E a época, reconhecida como emblemática. O caos total da perda da terra, a queda da monarquia e a destruição da cidade, incluído o Templo, configurava-se como um "êxodo ao inverso": retorno ao exílio e cativeiro.

       Jeremias confirmava esse caos e, por isso, era considerado colaboracionista com os imperialistas babilônicos. Daí sua rejeição total. Os próprios conterrâneos de Anatote não o queriam ali refugiado.

      Até um dos reis do período, em pessoa, desejava matá-lo. Somente contava com a simpatia de egressos do antigo "povo da terra", partido político-econômico que havia garantido a posse de Josias no trono, rei modelo de justiça na tradição do livro.

      A época, o texto e o homem profeta que emerge desse contexto, nessa ótica que se pretende contextualizar a visão de Deus. E que função teria, hoje, esse conjunto de textos, tais circunstâncias históricas e como, ainda, configura-se um modelo de relação com Deus.

      Esse exercício hermenêutico pressupõe uma chance de se contextualizar a mensagem de Jeremias para os dias atuais. Deus e o homem de hoje, no contexto dos dias atuais e que relação com o texto tradicionado se torna compatível com esta época.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Artigos soltos 26

Novo

       A promessa do evangelho é de renovação. Aliás, este termo ficou desgastado. Como, assim, novo? Tudo envelhece. O tempo é implacável. Algo sempre novo não existe.

       Vai ver que se trata de um "falso novo". Salomão, rei sábio da Bíblia, ele mesmo confirmou, certa vez: "nada de novo debaixo do sol". Aparenta ser novo, é aceito como novo mas, na verdade, não apresenta nenhuma novidade.

       Como o rock, por exemplo. Nada contra. Mas já está na estrada há quase um século. Onde, a novidade? A junção dos três, por exemplo, sexo-drogas-rock'n'roll está na rua desde os tempos dos (bis)avós.

       Então, deve ser o velho com roupa de novo. Mas então, continua a ser falso novo. Ou é totalmente novo ou trata-se do falso. Jesus mesmo falou que uma das características do novo é implodir o velho.

       Advertiu: não ponham vinho novo em odres velhos. Não ponham remendo de tecido novo em roupa velha. Em que sentido, então, o evangelho renova?

      Novo por imitação. Aí, parece aquela experiência ridícula do sujeito que não sabe envelhecer. Tenta empatar o tempo. Veste-se, fala-se e pinta-se como novo e vira-se um arremedo. Ridículo.

      O novo é original. Não reveste o que se desgastou, para apresentar disfarçado  de novo. E outra coisa, o novo é selfmade: autorrenovável, faz-se a si mesmo e, por isso mesmo, impõe-se.

       Na verdade, há coisas antigas que, por virtude intrínseca, se mantém, enquanto que outras, de novas, só a fama: têm prazo (curto) de validade.

      O evangelho, em si mesmo, traz nova ótica, a qual permite filtrar o que, mesmo antigo, conserva seu valor, daquilo que, exibido como novo, vale menos, pouco ou nada.

      De si mesmo renovador e ainda dado, em sua mentalidade, como um filtro de qualidade, o evangelho entra renovando a vida daquele que o incorpora, de quem o aceita, acolhe, abraça e divulga.

      Pela ótica e método do evangelho, brota espontâneo um controle de qualidade para despir-se do velho, que se desfaz, e incorporar o novo que, permanentemente, se refaz.
   

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sermão quase pregado V

       A igreja é quem, no mundo, imita Cristo. Paulo Apóstolo afirma "sede meus imitadores como eu sou de Cristo". E, noutra carta, "sede imitadores de Deus, como filhos amados, andando em amor do mesmo modo que Cristo".

       Definitivamente, a igreja, no mundo, vive Cristo. Aponta Cristo por si mesma, conduzindo outros à fé. Portanto, de que maneira pode a igreja compreender e levar a efeito sua imitação de Cristo, senão pelas Escrituras?

      No crente o Espírito habita e opera, como esclareceu Jesus, conduzindo à verdade. Fazendo lembrar tudo o que Jesus fez e ensinou. Somente pelo suporte concedido pelo Espírito, a igreja será igreja.

       Nas Escrituras consta o modelo de conduta e ministério da igreja. Em sua primeira obra, Lucas previne que vai expor a pessoa do Mestre. E sempre o indica dando prioridade às pessoas. O primeiro erro da igreja será não dar prioridade às pessoas.

      Deus dá prioridade às pessoas. Maria pergunta, no início da história que Lucas conta, como se achará grávida, se não contraiu núpcias com homem algum. O anjo responde como a virtude de Deus, pelo Espírito, vai envolvê-la, a ponto do ente nela gerado ser, autêntica e verdadeiramente, o filho de Deus.

      A vocação de Deus foi tornar-se homem. A prioridade de Deus é amar pessoas. Se há na missão da igreja uma prioridade é amar pessoas. A pergunta urgente é se a igreja tem, no mundo, vivido essa prioridade única.

Sermão quase pregado IV

       Atos dos Apóstolos, igreja em ação, plena do Espírito, seguindo e segundo instrução de Jesus: não arredar pé, "até que do alto revestida de poder".

      Pentecoste ao inverso. Não confundir "poder" com poder. Presos os apóstolos, em função de sua autenticidade. Que obstáculos hoje a igreja enfrenta por insistir em manter sua identidade?

       Para Paulo Apóstolo, quem quiser viver piedosamente ligado a Cristo Jesus, será perseguido. Em Atos, capítulos adiante, foram acusados de "encher Jerusalém", encher a cidade com a sua doutrina, deles, dos apóstolos, no caso, de Cristo.

        Que pensamento hoje enche a ciadade? O que a igreja está anunciando? Do que ela enche a cidade? Que doutrina a igreja segue hoje, refletindo-a no dia a dia?

      Em Atos era penoso pregar, viver e defender o evangelho. Alguém duvida da autenticidade desses registros? Há dúvida se, em suas páginas, o registro do evangelho corresponde ao teor único do verdadeiro evangelho?

      Há dúvida se a igreja daqueles dias pregava-vivia-pregava o evangelho? Há dúvida se a igreja de hoje prega-vive-prega o evangelho?

Sermão quase pregado III

       Em Atos deparamos o Pentecoste. Mais que milagre, foi anúncio de Cristo. E Pedro tomou das Escrituras. E, fazendo assim, começava a igreja, como o próprio Jesus havia instruído, a não arredar pé enquanto não fosse cheia do Espírito.

       Chequem aqui os três tópicos: (1) anúncio do evangelho; (2) referencial das Escrituras; (3) presença da igreja no mundo.

       Quer-se hoje o milagre. Até mesmo como fonte de mídia e renda. Nada do anúncio de Jesus. Pouco, talvez. Tímida a igreja, com certeza.

      Que resultado foi desse primeiro anúncio do evangelho? Foi a primeira vez, após a ressurreição de Jesus, que atreveu-se a igreja a pregar. Eles perguntaram "que faremos, irmãos?".

       Arrepender- se, crer, obter remissão do pecado e receber o Espírito como dom. Plenamente atingido o alvo do primeiro sermão assim pregado.

     Comprovada (1) a autenticidade do evangelho, (2) usada a Escritura como referência e (3) checada como profícua a presença da igreja no mundo.