segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 11



               Vento de Deus.

           Ruah Elohim. Espírito de Deus. A palavra espírito, seja no hebraico, língua do Antigo Testamento − AT, ou no grego, língua do Novo Testamento − NT, traduz termos que significam sopro, ar em movimento, vento. Uma das razões, certamente, é que essas palavras que traduzem Espírito, no AT, e Espírito Santo, no NT, indicam sua imaterialidade. 

          Aliás, o termo espírito, por assim dizer, é um termo técnico que se refere à definição de Deus, Ele em sua imaterialidade, como disse Jesus à mulher samaritana: “Deus é espírito”. Do mesmo modo os anjos, como indica o autor de hebreus, que são “espíritos ministradores”. O ser humano também é constituído por espírito, como diz Paulo aos Coríntios 1: “quem sabe as coisas do homem, senão seu espírito que nele está?”.

         Mas de todos aqui citados, bem parece que o único que retém consigo a identidade de ser mesmo espírito, visto que até mesmo por este nome é reconhecido, é o Espírito de Deus. Seu nome, então, guinado para substantivo próprio, tem a ver, primeiro, com sua imaterialidade. Por certo, também, de novo, pela sutileza de sua ação, aqui comparado a uma suave brisa, porque o Espírito, em sua identidade, age de modo sutil.

           E haja sutileza, porque é Paulo, novamente, que indica que o Espírito "perscruta - sonda, avalia, investiga, explora, bisbilhota mesmo - a intimidade de Deus". Isso quer dizer que o Espírito Santo é o alter ego de Deus. Se o Altíssimo desejou, um dia, privacidade, pela eternidade afora, nunca teve: o Espírito sempre privou de todos os Seus segredos. Aliás, de novo, no Evangelho, Jesus diz aos discípulos que, sobre o momento de Seu retorno, nem ele sabe, senão somente o Pai. Pois está aí: há coisas que o Pai sabe, que não divulga ao Filho. Já o Espírito, este sabe tudinho. Nada Lhe escapa ao conhecimento.

           Porém, mesmo que referindo-nos a uma suave brisa, é claro que vemos heróis do AT por ele sendo dirigidos, habilitados para a luta, como Sansão, por Ele conduzindo em ações de confronto, luta corporal mesmo, com inimigos. Sansão, campeão de UFC de seu tempo, porque cheio do Espírito. Assim como O vemos convocando, encorajando, inspirando e soerguendo profetas que, sob Sua influência, adquirem coragem para agir, pregando com todo o risco, enfrentando a fúria de seus contrários. E ponha contrários nisso...

        No Evangelho de Marcos, comparado o termo que se refere à tentação de Jesus com os outros dois sinóticos - levado ao deserto, em Lucas; conduzido ao deserto, em Mateus - a tradução escolhe o verbo impelir, como que indicando a necessidade de contrariar Jesus, a contragosto, como se pudesse haver alguma relutância da parte dele em obedecer. Já lá atrás, na fase que antecede a Criação, pairava por sobre a face do abismo, como se aguardasse a indicação do Criador de que o tempo de agir estava por vir. Como se inspecionasse o que estava para ser feito. Como pronto a inspirar o Criador em sua obra, imerso nesse silêncio primordial, como a incubar tudo o que seria criado.

        Seja no Antigo, tanto quanto no Novo, a ação de Deus no homem só se torna possível, real e exequível por meio da presença do Espírito no próprio homem. A distância infinita entre Deus e homem, instaurada quando este optou pelo pecado, pode ser anulada a zero, isso se chama comunhão, por meio da obra de Jesus, completa e perfeita, realizada na cruz. Mas fazer o homem, genericamente falando, entender isso, tornar possível que ele creia e tenha em si implantado esse benefício que sejam homem ∕ mulher batizados em Cristo, somente se torna possível, se torna factual por meio do Espírito. Comunhão com Deus somente por meio do Espírito, ainda que em Jesus esteja completada a obra de reconciliação.
  
        Vento de Deus. Como é esse vento? Na entrevista de Jesus com Nicodemos, aprendemos que é vento “que venta onde quer”. Se há um momento em que se assemelha a uma muito suave brisa, é quando sussurra aos ouvidos do homem argumentos que podem gerar o convencimento que conduz ao arrependimento e, consequentemente, à fé. Se há momento que se assemelha a um furacão, um tornado contra o mal, como Paulo descreveu aos gálatas, é quando milita contra a carne que, por sua vez, milita contra o Espírito, porque são opostos entre si. O Espírito se levanta, no homem, contra tudo o que contribui para destruir esse mesmo homem. Alguém que priva de presença do Espírito em si é, antes de tudo, esquizofrênico, lutando contra sua própria tendência assassina.

       Há momentos em que o vento, aqui me refiro ao mero fenômeno da natureza, parece só o vento mesmo. Que o que o norteia são condições climáticas, diferenças de temperatura, pressão atmosférica, enfim, outros fatores. Há momentos, porém, que a candura do vento, como suave brisa, ou mesmo até que seja mais forte, porém cadenciado, no modo como varre a vegetação rasteira, inclinando folhas, galhos, árvores, ou simplesmente aliviando o calor, esse vento, talvez, lembre mais o Espírito, pelo efeito benéfico e controlado que produz, como se fosse um regente, tomando tudo com seu frescor, refrigerando a Criação e espalhando doce aroma aos quatro ventos.

          Presença real. Nosso ponto de contato com Deus. Sutil. Invisível, porém sensível. Objeto de nossa fé. Fiscal da certidão de verdade do sacrifício de Cristo que, "pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu a Deus". Fiscal de nossa confissão de fé porque "o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus". É quem nos convence, no ponto de partida da conversão, de que somos pecadores, pois dele disse Jesus "quando vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo". É ele que nos permite ser imitadores de Deus, como requer de nós Paulo aos Efésios, ou partilhar do fruto do Espírito, como também se referiu aos Gálatas.

             Vento de Deus. NEle nos batizou Jesus. Ele nos revela as grandezas de Deus. Consegues ler com esses olhos as páginas das Escrituras?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 10

       A Bíblia
           
          Inegável o status que a Bíblia alcançou como Livro. Se prevalece a estatística, ainda é o mais vendido no mundo. Lido, não sei não. Por variados pontos de vista, pelo menos 3 milênios desfilam por suas páginas, senão mais. História, literatura e religião, essa tríade vem marcando a interseção da humanidade com seus textos, para o bem ou para o mal, dependendo do fato de ter sido entendida de maneira acertada ou usada a pretexto.
           
           Fonte de polêmica, sempre um canal aberto que lhe serve de referencial, assim como uma acirrada crítica que caminha paralela aos fatos que descreve. Serão isentos todo o tempo seus autores? Pelo menos supõe-se que sempre acreditaram no que escreveram, visto que, nem sempre, estão a favor da marcha natural desses mesmos fatos ou ao lado, de maneira cúmplice, apoiando os protagonistas da mesma história descrita.

         Só para ficar num exemplo, Jeremias brigava com todo mundo. Supõe-se que nasceu sacerdote, mas nem seus conterrâneos, da vila de Anatote, a 5 km de Jerusalém, queriam-no de volta. Deslocado para a função de profeta, indispunha-se com todos os outros profetas, batia de frente com o pessoal do sacerdócio, contestava os anciãos do povo, acusava de corrupção os juízes e, até mesmo com relação à turma do palácio, isso mesmo, nas barbas do rei, não era consenso entre a nobreza. Para falar a verdade, até o rei ele trazia em sua lista negra. Para se ter uma pálida ideia do problema, Jeoaquim, em nada semelhante a seu pai Josias − este o único rei amenizado pelo profeta − quis matar Jeremias.

           Muito embora seja esta uma discussão deveras interessante sobre a Bíblia, qual seja, a marca de caráter, contexto e valia de seus personagens, seu incômodo maior é dizer-se ou ser aceita por tantos outros como “palavra de Deus”. O autor do Gênesis, por exemplo, logo o seu primeiro livro, que muitos aceitam ser Moisés, porém acadêmicos modernos, com pelo menos já 100 anos de argumentação, francamente contestam essa autoria, pois bem, esse autor, seja lá quem for, atreveu-se a afirmar: “No princípio... Deus”.

             Mais adiante ainda afirma que, além de Deus fazer, de Deus criar, segundo o autor, todo o Universo, Deus disse “Haja luz”. Quero frisar, aqui, que esse (anônimo) autor, além de dizer o que Deus fez, quer dizer o que Deus diz. Aqui temos, portanto, o primeiro profeta no texto da Bíblia. Definitiva e independentemente da discussão, válida ou não, do valor adquirido pelo Livro ao longo de milênios, da quantidade de pessoas ou religiões que o prescrevem como regra de fé ou do valor intrínseco de seu gênero literário, ou ainda referenciais fidedignos de suas indicações históricas, entre todas as outras prováveis discussões, supremo atrevimento foi esse autor dizer “Deus fez”, “Deus disse”.

           Sim, porque nessa formulação, atribui duas coisas a Deus e podemos perguntar: com que autorização afirma isso? Qual sua fonte primária de dados? Como, enfim, sabe ou comprova que “Deus fez” e “Deus disse”? Segue-se adiante ou, definitivamente, alguém se detém, tropeçando logo nessa primeira afirmação. Sim, porque ela é determinante para o valor da narrativa que segue. Se é possível confirmar que “Deus fez” e que “Deus disse”, a postura será uma, com respeito ao grau de fidedignidade do que segue escrito. Caso seja impossível atestar essa confirmação, sim, prossegue-se, até, mas a narrativa e toda a documentação textual que segue terá um viés relacionado a essa segunda postura de suspeita da possibilidade de ser verdadeira a premissa.

          Os textos, então, terão valor literário, histórico, sim, em certo sentido muito bem definido, religioso, é certo, como fenômeno tipicamente humano, enfim, toda a história do texto e de suas interpretações se confunde, definitivamente, e até se funde com a história do Ocidente e do Oriente. Impossível estudar história da humanidade sem levar em conta a Bíblia. Mas se vai longe a premissa que nela, em verdade, comprovadamente, “Deus fez” e “Deus disse”, ora, uma bruta guinada será dada na autenticidade de sua principal afirmação, de que o ponto de partida seja que Deus existe, criou o Universo e pode falar, ser ouvido, comunicar-se com o homem.

               Vivemos uma época da crise de valores, da presunção de se ter resposta para tudo e conhecimento ilimitado, assim como da total permissividade e rápida e radical mudança de paradigmas. Considera-se, definitivamente, a ciência como num patamar de última palavra em todos os sentidos. Portanto, se houve tempo em que a Bíblia fosse considerada uma espécie de "manual de bons costumes", é claro, se fosse lida de modo correto, espelhando um retrato fiel da sociedade, sem meias palavras, trazendo consigo valores, conhecimento ou revelação, enfim, uma exposição e fonte de tesouros e elementos úteis à humanidade, atualmente nem virtudes, nem valores e nem princípios éticos, até mesmo, religião são considerados prioridade ou que a Bíblia seja referencial para tanto.

               Mas resta a ela uma validade, que me parece a principal. Prevalece a sua identidade fundamental: o que Deus faz, o que Deus diz. A Bíblia é o único Livro referencial para o fazer de Deus e para o falar de Deus. Alguém se arrisca a fundamentar que haja outro paradigma para que seja definido conhecer o que Deus faz e o que Deus diz? A identidade da Bíblia é apresentar-se como o agir e o falar de Deus, enfim, a voz de Deus e a identidade, uma revelação de Deus, por seus atos. Se o seu primeiro autor foi verdadeiro e tem credibilidade ao afirmar que “Deus fez” e “Deus disse”, a Bíblia será lida, ao longo de seus textos, por esta marca.  Se esse primeiro profeta mentia, delirava ou somente tinha a intenção de enganar tantos ou inventar religião, nada resta à Bíblia como relevante para a humanidade nos dias atuais. Só interessa na possibilidade de que Deus fale e o homem seja capaz de ouvir.

                  Profeta é quem fala a outrem o que ouviu de Deus. Os autores da Bíblia são autênticos ao afirmar que o que dizem, dizem da parte de Deus? Eles, antes de mais nada, acreditam no que dizem e dizem falar em nome de Deus. Este é o principal absurdo. Este é o absurdo maior das Escrituras. O homem não suporta esta evidência. Torna-se tão perturbadora essa possibilidade que é possível até encontrar teólogos que não creem na existência de Deus ou, se creem, não creem tão literalmente que a Bíblia seja voz de Deus. Estudam e “fazem” teologia por teologia, tornando-se o suprassumo do que até hoje foi produzido na esteira dessa história toda. Agora, Deus falar, Deus fazer, bem, é discutível.

              Talvez seja melhor fechar em torno da questão de ser a Bíblia uma criação do homem, do gênio humano, e assim deve ser estudada. É perturbador que Deus tenha feito, que Deus tenha dito. Não tão óbvio assim. O homem precisa cercar de mistérios a possível revelação de Deus, quem sabe elitizando essa percepção. Não para tantos, não para qualquer, não tão direto e não tão simples assim. O homem precisa cercar até mesmo de incredulidade sua teologia a respeito de Deus. Por muitas outras vias, por outras várias argumentações, por outros variados e complicados sistemas é que se torna possível chegar a um vislumbre de Deus. Nunca tão direto, nunca tão simples.

        Mas a Bíblia insiste em afirmar que Deus se fez homem. Deus surpreendeu o homem. Deus revelou todo mistério. Deus encurtou o caminho. Deus tirou a venda de si, para desvelar-se, e a venda dos olhos do homem. Isso é demais para o homem. Não pode ser assim tão simples, não pode ser assim tão direto, não pode ser assim tão fácil, não pode ser assim tão para todos. É necessária uma mediação e não pode ser por meio de pessoas tão comuns assim. Certa vez, Jesus se expressou, numa oração, dizendo “graças de dou, ó Pai, porque dos ‘sábios’ e ‘entendidos’ ocultaste toda essa simplicidade”.

           Por um único ponto de vista, do primeiro autor (anônimo) do Livro, Deus fez, Deus disse. O primeiro profeta assim se expressou. Esse anônimo, se não foi mesmo Moisés, inventou o método áureo, a regra maior para a serventia que o Livro traz consigo: ou Deus fez e Deus disse, aceita-se assim, ou para nada mais serve, comparativamente será secundária a serventia. Ao longo dos textos do Livro, o que Deus fez, o que Deus disse segue como parâmetro. Ou não.           

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 9


      Tradição judaico-cristã ou por algumas mandrágoras


             Faremos uma comparação entre duas narrativas atuais e outras duas bíblicas. Os endereços das atuais estão indicados aí, abaixo, marcados por (1), (2) e (3). Vamos ao exercício proposto:

(1) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/01/1732932-casais-de-3-ou-mais-parceiros-obtem-uniao-com-papel-passado-no-brasil.shtml
          
          Antecipadamente, peço perdão porque estas mal traçadas linhas serão ou pouco mais extensas do que as anteriores. Quando se trata de academicismo rasteiro, ou seja, incompetência ou má intenção proposital na discussão de assuntos que não são tão simples quanto se quer que pareçam, costuma-se responsabilizar, numa penada só, a “tradição judaico-cristã” por todos os males da humanidade.

          Explica-se: a Bíblia é formada por dois blocos: o primeiro, de tradição mais acentuadamente judaica, é o Antigo Testamento; o outro, de tradição acentuadamente cristã, é o Novo Testamento. Pois são exatamente esses dois blocos responsabilizados por essa praga moralizante, esse rescaldo, esse patrulhamento ostensivo da História, com uma única intenção, dizem, estragar a festa.

          Leitura equivocada do Livro, deliberadamente sem critério. Aqui abordo dois fatos que, para a Bíblia, nunca foram novidade e parece que, nos dias atuais, deseja-se trazer, de volta, ao costume. O primeiro deles ganha o nome atual de “união poliafetiva”. Vou abordar aqui dois casos desse tipo bíblico de poligamia, o primeiro deles referente a Jacó, já decantado em poesia por Camões, lembram: “Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela.” Já leram toda a história? Já ouviram estes versos?

           Pois Jacó, por amor a Raquel, também desposou a irmã, Lia, enganado que foi pelo tio Labão, pai das duas moças. Começou entre as duas uma renhida disputa pela atenção e amor maior de Jacó, que não conseguia esconder sua preferência por Raquel que, a princípio, era estéril. Resultou numa relação poliafetiva de um varão e quatro mulheres, duas delas escravas dadas pelo sogro às filhas. Cada filha adiantava a Jacó sua serva, a fim de ganhar na provável quantidade de filhos homens nascidos. Por mandrágoras, certa vez, Raquel alugou à Lia uma noite com o marido, um drible na agenda do revesamento das irmãs na intimidade com o patriarca.

          Como resultado, a disputa entre as mães pelo ganho do pai gerou, entre os irmãos, ódios de morte. José, depois chamado “do Egito” só escapou à gana dos irmãos porque o mais velho, Rubem, argumentou que seria feio que o matassem, ficariam mal na fita. Venderam-no a mercadores na estrada para o Sul, enganaram o velho pai e só vão reencontrar o irmão anos depois, quando careciam de alimentos para sobreviver.

         Segundo caso de união poliafetiva, homem mais sábio que Jacó na condução de sua casa, foi Elcana, que administrava a união com Ana e Penina. Esta “provocava excessivamente” Ana, a quem ela considerava rival, “para a irritar”, no linguajar bíblico. O que fez Elcana, o marido das duas? Convocou uma reunião de família e deu uma dupla bronca? Não, era um homem inteligente. Convocou a vítima e, indiretamente, recomendou-a a suportar a ofensa da rival e lhe fez uma declaração de amor que poucos homens são capazes de fazer e/ou sustentar coerentemente. Como a principal reclamação de Ana era ser estéril, Elcana disparou: “Não te sou eu melhor do que 10 filhos?”. E olha que a mulher é a unica que pode atestar a validade de declarações como essas.

  (2) http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ps-sp/2016/01/1730004-festas-com-nudez-e-sexo-permitidos-se-popularizam-em-sao-paulo.shtml

          Com relação a outra moda em voga, a exposição pública do sexo também é abordada na Bíblia, aliás, indicada por um fato curioso que envolveu uma briga de família. Absalão, que diz a Bíblia ter sido um jovem belíssimo, de uma vasta e magnífica cabeleira, pretendeu para si o trono de seu pai, o rei Davi. Garoto mimado desde sempre, Davi, cavalheiresca e estrategicamente, retirou-se do palácio, com toda a sua corte, staff e exército, deixando o caminho aberto ao rapaz.

          Pelo sim, pelo não, Absalão irritadíssimo com essa postura inteligentissimamente light de seu pai, resolveu, no mesmo terraço do palácio, como ato (sexual) de provocação, proporcionar à Jerusalém da época, desprovida de vídeo, televisão, internet ou tela touchscreen uma cena de sexo explícito com as concubinas de seu pai, uma espécie de vingança obscena pretendida para uma exposição do pai ao ridículo, ao mesmo tempo agastado o rapaz com a estratégia inteligente de Davi que, magistralmente, encarregou ao tempo e à experiência o esvaziamento das pretensões do menino.

         Baseado nas reflexões sobre esses dois fenômenos, quais sejam, a possibilidade concreta de um homem conviver com mais de uma esposa e do sexo se tornar, em qualquer grau ou medida, uma experiência explícita, veiculada pela mídia ou praticado em grupo, mesmo em ambientes fechados, faço algumas observações:       
   
         (1)     A Bíblia, mal interpretada por muitos, vista com preconceitos por outros tantos reflete, em suas páginas, a realidade do tempo ou época em que foi escrita. No caso da poligamia, ela expressa a opção de uma etapa da sociedade, num determinado contexto, e pode ser até que estejamos retornado a tempos dessa mesma opção. Mas o padrão que os evangélicos seguem está explicitado na narrativa do Gênesis, quando o Livro afirma que Deus (1) criou macho e fêmea, (2) abençoou sua união e (3) incluída na bênção estava a indicação para que fossem fecundos. Vivemos um tempo em que outros modelos de família se esboçam, inclusive com aprovação legal. Portanto, a divulgação de modalidades diversas da tradicional monogamia heterossexual, bem como a defesa de variações desse modelo são reivindicadas como um direito irrefutável. Diante disso, os evangélicos reivindicam também o seu direito, inalienável, de defender (1) a monogamia heterossexual e (2) o modelo de família que resulta dos filhos nascidos no contexto dessa relação. Este é o modelo que tomamos como prática, defendemos e divulgamos, sem que, na defesa deste modelo, seja necessário acusar outros. Para tanto eu, particularmente, discordo de qualquer acusação, denúncia ou discriminação de quem pratica outro modelo, mesmo porque a responsabilidade por toda e qualquer escolha, para a Bíblia e para Deus, é sempre individual. 

           (2)  Quanto ao modelo de sexo praticado pelos evangélicos, aliás, mais uma vez, a Bíblia nunca foi moralista ou estraga-prazeres em termos da questão sexual. Esse assunto é mais um que entra na lista das leituras equivocadas do Livro ou da má fé de seus “intérpretes de ocasião”. No coração da Bíblia, pertinho do Livro dos Salmos, há um outro que enaltece a sexualidade e a relação entre homem e mulher, que é Cantares ou Cântico dos Cânticos. É o livro que começa com a declaração "beija-me com os beijos de teus lábios, melhores do que o melhor vinho". E isso é só o começo. Portanto, a Bíblia nunca indicou o sexo como algo repulsivo, menosprezado ou desvalorizado. Ela faz questão, sim, de indicar certas posturas que ela considera perversão sexual. Pois evangélicos conscientes e inteligentes, leitores lúcidos do Livro, nunca foram inimigos de uma sexualidade sadia. Somente acham que deva ser praticada na intimidade, com limites definidos pelos parceiros e nunca usada como instrumento de mídia ou exposição pública, por julgar que se trata de uma parceria íntima e para ser experimentada numa vivência de amor e respeito.

          Nós evangélicos não abrimos mão dos princípios aqui expostos. No momento que escrevo este texto, a internet divulga o interesse de um certo grupo de políticos para que seja aprovada uma certa “imunidade”, ou seja, “eximindo religiosos de crime de injúria e difamação”. 

      (3) http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/01/28/o-que-e-o-projeto-de-lei-que-exime-religiosos-de-crimes-de-injuria-e-difamacao.htm

              Sou contra, pois já há jurisprudência definida para essa finalidade. Novamente a Bíblia, ela condena que quaisquer pessoas se arvorem no direito de serem juízes ou acusadores de outrem, de qualquer um, de qualquer outro. O que reivindico aqui é o mesmo direito que, frequentemente, vejo em outras parcelas da sociedade de propagar, propalar e defender seu modo e modelo de entender e praticar, no caso da argumentação deste texto, sua sexualidade. Que façam conforme sua consciência lhes aconselha. Quanto a nós, evangélicos, também agiremos da mesma forma, entendendo, praticando, defendendo e proclamando o nosso modelo. Para isso, requerendo os mesmos direitos e a mesma liberdade. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

Mal traçadas linhas 8


 
      Ano Novo

           “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

           Lemos, no tradicional culto de vigília, que é aquele culto que os evangélicos estendem até 24h de 31 de dezembro para, como se costuma dizer, ‘romper o ano’, o texto de Romanos 12:1-2. Encontra-se bem ali, no coração da carta, quando Paulo faz, no texto, transição da parte doutrinária de seu argumento para a parte prática, usual procedimento dele.

          Tenham paciência, mas vamos, digamos assim, dissecar esse trecho aí da carta de Paulo Apóstolo aos Romanos. Isso porque a Bíblia carece de atualização. Sua confrontação atual deve ser exercício do tripé leitura-assimilação-prática. Por isso é necessário reconhecer até que ponto há gente ainda disposta a isso.

          Esse texto é um pedido, mais que simplesmente isto, é um rogo, ou seja, pedido de intensidade maior. E Paulo invoca às misericórdias de Deus que, ao mesmo tempo, são suprimento para quem ouvir atender ao pedido, assim como essas misericórdias visam sensibilizar quem ouve, a fim de que atenda a esse pedido.

         Trata-se de, pelo menos, duas coisas, em linhas gerais, para a economia deste texto: (1) autenticidade de culto; (2) um não conformismo. Por isso considero que o texto acima se constitui em regra geral e obrigatória a todos os crentes, quanto à definição de sua identidade no mundo de hoje. Autenticidade do culto prestado a Deus e presença não conformista constituem-se em elementos definidores da identidade do cristão.

        A palavra “pois”, no início da sentença, subscreve tudo o que vai em sequência ao que Paulo escreveu antes. Melhor dizendo, para que se entenda a base argumentativa do pedido, que não será, automática e somente pelas misericórdias de Deus, num ato mágico, atendido, é necessário ler os capítulos anteriores da Carta aos Romanos. Está aí um bom exercício e fica pendente a pergunta: há quanto tempo você não lê toda a Carta aos Romanos?

        Deus nos requer como culto. Somos sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Fomos santificados no sacrifício de Cristo. E, de modo consciente, em exercício de santidade, devemos nos oferecer a Deus. Como Abel, o segundo a oferecer a Deus sacrifício, foi aceito, porque Deus, dizem as Escrituras, "agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta", assim deve ser conosco.

         Culto não é, definitivamente, sequência litúrgica, lugar, duração e caraminguás culturais, firulas, discussão estéril se tais ou quais modelos são mais ou menos aceitáveis. O máximo que se pode avaliar, quanto a esses detalhes, é se são de bom ou mau gosto, se são inteligentes ou medíocres ou se são originais ou plágio da cultura rasteira vigente. Culto verdadeiro é oferta de si mesmo a Deus, que avalia ser santo e agradável. Veja bem: aqui, como na adoração, o controle de qualidade pertence a Deus.

       Segundo critério de identidade, Paulo relaciona, intrinsecamente ligado ao primeiro é o não conformismo. Não adianta: a Bíblia é o único Livro que denuncia e define o que é pecado. Ser cristão envolve profecia. E profecia é denúncia coerente e identificação do que é pecado em si, no outro e na sociedade. Impossível identidade cristã sem um critério de identificação, isolamento e tratamento do mal na pessoa, no próximo e na sociedade.

        Quando Amós, no Reino do Norte de Israel, assim como Isaías, no Reino do Sul de Judá, cerca de 700 a.C. denunciaram o culto praticado, ativeram-se ao fato de que era culto exterior e hipócrita e que, entre os que ofereciam, grassava o pecado, estabelecida, então, a incoerência que tornava nojenta, para Deus, toda aquela panaceia. Quando cumpriam sua agenda de culto, Deus mudava de canal, para não sentir náusea.

      Paulo sugere que nos permitamos transformar por uma renovação de mente que somente o Espírito Santo proporciona. Daí ser inteligente e original a postura evangélica. Pelo menos deveria ser. Evangélico autêntico, autêntico cristão sempre terá uma proposta nova e atual. Deve trazer consigo, permanente e espontaneamente, como um dia escreveu o pastor John Stott, uma contracultura cristã. Um dos graves problemas atuais da igreja é que perdeu a capacidade de apresentar-se ao mundo como contracultura a tudo isso que está aí.

        Mais uma vez Deus vai avaliar como bom, agradável e perfeito. Será que podemos considerar essa trinca de adjetivos um padrão de avaliação de Deus? Experimentar a vontade de Deus significaria, por exemplo, um padrão de conduta desejado por Ele, uma afirmação de identidade na sociedade, enfim, uma postura profética individual para cada cristão e, coletivamente, para a igreja? Bom, que esta reflexão se constitua num bom exercício de interpretação para este trecho em questão.
        
          

sábado, 26 de dezembro de 2015

Mal traçadas linhas 7



  De Natal
    
    Nos estertores finais do ano da graça de 2015, pediram que pregasse sobre Natal. Esse tipo de mensagem é recorrente. Se a gente não tomar cuidado, torna-se mesmo repetitivo.

    Então pensei em Mateus, na leitura que ele faz das Escrituras, e foi este o primeiro tópico da fala. Leitura das Escrituras produz mais Escritura. Baseado no que leu do Antigo Testamento, esse evangelista produziu Novo Testamento.

    Significa, de novo, dizer que sem leitura, prática e proclamação bíblica não se faz evangelho e nem Reino de Deus. Bíblia é comunicação de Deus com o homem. E a tríade leitura-assimilação-prática é o modo de entender o agir de Deus no e através do homem.

   Desprezo, descaso e ignorância da Bíblia, que têm sido a ênfase nos círculos evangelicais atuais, produz nada, produz arremedo de confissão evangélica. E os assim chamados evangélicos, nessa condição, tornam-se sal insípido, jogados às ruas e pisados pelos homens que, indiferentemente, passam adiante, os mesmos de sempre.

    Segundo tópico da leitura de Mateus, foi notar que se cumpriu a profecia de que Jesus nasceria em Belém, pequena demais. Definitivamente os homens detestam o que é pequeno demais. E evangélicos também, ultimamente, rejeitam o que é pequeno demais. Isso gera um conflito direto com a preferência de Deus, que escolhe o que não é, para reduzir a nada “o que é”.

     Portanto, o poder de Deus sempre se manifesta no que é pequeno, exatamente para reduzir a nada o que é presumido. Evangélicos foram também assimilados pela vaidade. Como dizia Salomão: tudo é vaidade. Não fala das coisas, em si, mas dos homens que desejam, para si mesmos, ostentação. E, para tal, usurpam para si o que é dom de Deus, considerando suas as mediações de Deus, manipuladas para que enriqueçam monetariamente adquirindo, então, mais ostentação ainda. Tornou-se um círculo vicioso.

    Em terceiro, Mateus cita a profecia de Isaías, que sugere a Acaz que peça a Deus um sinal. Nem precisava, porque Deus, em Sua misericórdia, sempre mostra Seus sinais. Então o rei Acaz acovardou-se.

     Fugir dos sinais de Deus revela-se covardia. Há muita gente covarde. O rei foi demagogo, fingiu-se politicamente correto e disse não pedirei a Deus um sinal. Quem crê, todos os que creem, é porque identificaram e creram em Deus pelos sinais concedidos.

     O principal foi a crucificação de Jesus. Aquela crucificação é o principal e definitivo sinal. Não há nenhum outro maior, todos os outros apontam para este.

   A leitura de Mateus sugere três coisas para este Natal, estertores finais do ano de 2015: (1) dependência das Escrituras como essencial no diálogo com Deus (e com os homens); (2) Deus lança mão do que é pequeno, para envergonhar o homem vaidoso e mestre de ostentação; (3) Deus, em Sua misericórdia, espalha sinais para que o homem possa divisar, enxergar, atentar para a relação de fé com Ele.

  Bom Natal. Muito Feliz Ano Novo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mal traçadas linhas 6



     Atualize-se

        “Atualiza a sua tela”. Assim falou o atendente, que precisava enviar e-mail de confirmação da passagem aérea, e me solicitava atualizar para que os novos dados aparecessem. Meu filho perguntou: por que não apertou a F5? Era só apertar essa tecla.

         Pois é, vez por outra esses elementos da nova tecnologia reservam certas analogias que a gente pode aplicar à vida prática. A gente precisa, mesmo, dessa repaginação, dessa atualização. E, muitas vezes, até tentamos, mesmo, porém errando de ênfase.

         Pensamos que atualizar é, por exemplo, assimilar modos e jeitos para, exatamente, não ficarmos desatualizados. Torna-se ridículo, então, um cara de quase 60, como eu, tentando falar, comportar-se e pensar como alguém, digamos, 40 anos mais jovem.

        A gente assiste a uma tentativa de repaginação da igreja evangélica em áreas diversas. Nesse esforço, é necessário saber o que se deve prescindir ou jogar fora, e o que se deve preservar. Na minha geração, a uns 35 anos atrás, o livro Cristianismo Equilibrado, de John Stott, foi muito útil, sugerindo bom senso nessa postura seletiva.

        Destacava que Jesus sabia manter tradições e refugar modismos, filtrando o que era descartável do que deveria ser permanente. Exemplo era a postura dele sobre a Lei de Moisés, quando ensinou a separar o conteúdo do que era circunstancial.

         Foi célebre, por exemplo, a cena da sinagoga, quando cobravam de Jesus que, no sábado, não curasse, uma estúpida interpretação da preservação de integridade do sabbath. O Mestre perguntou: “Posso fazer o bem no sábado, ou estou proibido de o fazer?” Inteligência, colocação do problema nos parâmetros certos e coragem para sustentar opinião própria. Agora, só falta aplicar isso à igreja de hoje.

          Atualize-se. O sacrifício de Cristo tem validade permanente. Aplica-se de modo contínuo, como oferta, tanto a quem dele não se tornou, ainda, participante, quanto a nós que, constantemente, necessitamos de sua mediação. A ação do Espírito Santo em nós, que mantém atualizada a mediação desse mesmo sacrifício, também é permanente.

         Por isso, é necessária essa repaginação constante de nossa vida. E não depende somente de nós porque, como diz o profeta Jeremias, nosso coração é desesperadamente corrupto e até a nós mesmos engana. Gostamos de repetir, também de Jeremias, aquele versículo que postula: “Maldito o homem que confia no homem”.

         Isso mesmo: somos nós mesmos o primeiro homem (ou mulher) de quem devemos desconfiar. Apertar a tecla F5 não depende somente de nossos arquivos cache internos. Vai ser necessária a assistência do Provedor do sistema. Atualizar-se, para tanto, depende, sim, da atuação do Espírito em nossa vida.

          Que, certamente, virá da busca de lucidez para os olhos, resultado de exercício de vida piedosa. Esta palavra grega, sem correspondente na língua portuguesa, define ações que, em conjunto, modelam a vida na relação com Deus. Devem envolver, certamente, tempo com a Bíblia, em coerência com o tripé meditar-cumprir-proclamar.

         Outra postura deve ser presença na igreja, em meio ao grupo, vida de comunhão. Com todos os defeitos, crises e críticas de que essa modalidade de ajuntamento se tornou alvo, não há outro lugar, como diz o Salmo 133, onde o Senhor 'ordene a Sua bênção e a vida para sempre'.

         Vida de oração. Tempo gasto de conversa íntima com Deus, dentro do que a Bíblia ensina ser oração, evitadas a hipocrisia, as vãs repetições, o discurso de vaidades, a manipulação de 'bênçãos' para consumo próprio, enfim, oração é a súplica autêntica pela contínua tentativa de pôr em prática o que a Bíblia ensina e o que a igreja sugere que seja vida piedosa.

          Passa por essas vias a atualização. Tecle essa tecla. F5. O Provedor vai nos mostrar que arquivos deletar, que arquivos manter, que novos arquivos agrupar.
        

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Mal traçadas linhas 5


  Dívida de amor

        Todos temos uma dívida de amor. Paulo Apóstolo na carta aos Romanos escreve ‘a ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros.’ O que ele quer dizer é que nunca fiquemos devendo nada a ninguém. Mas amor será, sempre, uma dívida atualizada. Por isso, afirmo aqui que todos temos uma dívida de amor.

        Que nunca é paga. Porque, por mais que amemos, melhor dizendo, que exerçamos o amor que aprendemos de Deus, ainda há o que amar. E amar todos, indiscriminadamente, sim, porque costumamos escolher quem amar. Pronto: isso já não é amor.

         Quando a Bíblia diz que amemos os inimigos – os declaradamente inimigos com mais aqueles que costumamos escolher para não amar, porque os classificamos como inimigos –, pois quando a Bíblia diz que os amemos é porque, depois de amar essa classe de gente, torna-se fácil amar qualquer um.

          Pois bem, primeira lição deste texto: aprenda amor com quem você mais escolheu desprezar, porque ficará fácil amar aqueles que você escolheu para o contexto de suas relações. Os fariseus também reclamavam das pessoas que Jesus escolheu para conviver mais de perto, porque as amava todas.

          João Apóstolo, leiamos lá, no capítulo 4 de sua 1ª carta, ensina o caminho que se deve percorrer para chegar ao amor. Primeiramente, ele coloca o amor como opção única, ou seja, não há outra: “filhinhos, amemo-nos uns aos outros”. Depois passa a enumerar: (1) o amor é de Deus; (2) ama quem é nascido de Deus, porque conhece a Deus; (3) o amor de Deus se manifestou na dádiva de Cristo ao mundo; (4) Ele nos amou primeiro, ou seja, de nossa parte, isoladamente, não existe amor; (5) o modelo de amor é de Deus, não qualquer que inventarmos.

          Alguém pode argumentar, ‘mas caramba, eu amo’. Sim, ama. Isso mesmo: essa coisa de amor é dádiva de Deus a nós. Somos imperfeitos nisso, sempre estaremos na página 1 da cartilha, mas é para exercer e aperfeiçoar continuamente e com todos, como já dissemos: primeiro os que, para nós, cheiram a ódio, inspiram desprezo e exalam o cheiro que atiça o nosso desdém.

          Por exemplo, quando Paulo Apóstolo diz que o marido deve amar a mulher como Jesus ama a igreja, figurada e analogicamente Sua esposa, tem de ser muito homem. Isso mesmo: para a Bíblia, quem é homem, é quem é capaz de amar como Cristo ama. Como pensamos ao contrário disto! Porque achamos que, para ser muito homem (ou muito mulher) outros atributos devem ser amealhados para formar nossa personalidade. Pura vaidade e erro de cálculo.

           Que tal, prioritariamente, amar? João Apóstolo conclui assim: “aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor.” Em meio a todas as nossas imperfeições, camuflado e escondido na névoa densa de nosso pecado e ausente onde ocorrem vãs pretensões, insinua-se o amor de Deus em nossas vidas. E você? Não se julga imperfeito(a)? Então, é um(a) louco(a).

           Não tem pecado? Então, como, de novo, diz João Apóstolo, agora no capítulo 1 (procure lá, na Bíblia), mais do que mentiroso, quem diz que não tem pecado chama Deus de mentiroso. Sabe por quê? Porque é Deus quem nos sonda, denuncia e revela a nós o nosso pecado.

            Quanto às nossas pretensões, como diz Salomão, tudo é vaidade e correr atrás do vento. Ele não está querendo, literalmente, dizer que tudo, que as coisas todas à volta são vaidade. O que ele quer dizer é que tudo, para nós, é pretexto para nos envaidecer. Estamos envaidecidos com o tipo de pessoa que somos? Ora, então vamos nos medir e avaliar pelo amor. Não há outro padrão de aferição.