segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015


  Fé

                   Certeza e convicção, diz o autor aos Hebreus. Poderíamos trocar essa definição, substituindo, por exemplo, pelas palavras tergiversação e subterfúgio. Bom, pelo menos a primeira destas duas palavras, sempre quis usar ou escrever e, até agora, bem, acho que é a primeira, primeiríssima vez que utilizo. Vamos em frente, ver no que vai dar.

           Bom, essa nova definição de fé a tornaria, para efeito de mercado, mais prática e manipulável. Muita gente boa, digo boa no sentido de competente no que faz, vem utilizando fé, uma falsa fé, na verdade, como instrumento de ganho e manipulação. Nesse contexto, definir fé como tergiversação e subterfúgio encaixa, perfeitamente.

              Uma olhadela na net, para conhecer a etimologia do termo, indica tergiversar uma reunião de tergo, costas, com versare, virar, ou seja, "tratar de colocar a atenção de quem investiga em algum outro ponto, para obter uma folga da investigação". Resumindo, para efeito da economia deste texto, mudar o foco, desviar a atenção.

             Subterfúgio, por assim dizer, já reúne subter, às escondidas, abaixo, secretamente, e fugere, fugir, correr. Quer dizer, "qualquer escusa artificial ou manha para fugir de algo ou evitá-lo". Creio, podemos afirmar, que a mesma parecença que há entre, de uma lado, certeza e convicção e, de outro, tergiversação e subterfúgio, confirmam esses dois pares como sinônimos entre si.

         Alguns masters of realities ocupam-se com nuvens de fumaça que, ao invés de manter os olhos de seus interlocutores fixados na realidade, afastam-nos dela, exercitando a formação de uma outra ficcional, transportando para uma visão ilusória, uma dimensão criada propriamente para a manipulação de intenções e criação de uma dependência psíquica.

         Muitas pessoas estão sendo conduzidas, em nome de uma falsa fé, a uma dependência, principal e especificamente financeira, julgando que recebem de Deus na medida em que abrem mão de suas posses, seu dinheiro, seus bens, numa troca em que os beneficiados são os prestidigitadores. Na verdade, esta palavra não significa "rapidez" (praestus = pronto) "com os dedos" (digitus - daí a moderna digitação), mas não, a palavra procede de praestigium, prestígio, "diante de" para iludir ou "a fascinação que alguém pode exercer sobre outro" ou "o jogo de magia que pode provocar esse efeito": prestidigitador da (falsa) fé.

     Portanto, fé, na Bíblia, a verdadeira, nunca desloca da realidade, mas mantém os olhos fixos nela. Quando a realidade não bate, não confere ou é tão cruel ou traumática, é possível que sejamos tentados a rejeitá-la. Mas será somente uma tentação, como todas as outras, que deve ser rejeitada. Rejeitada, sim, a tentação de fugir à realidade, e não, fugir à realidade.

     Nessa releitura, fé não seria, como diz o anônimo autor da Carta aos Hebreus, certeza e convicção, porém numa rendição aos prestidigitadores que existem aos montes, por aí, fé se tornaria tergiversação e subterfúgio. Às vezes, avaliamos fé, pela mania que se instala nesse começo de século, de nos subordinarmos, como loucos, como sem sentido, a tudo o que é tecnológico, digital (ora só, que coincidência de termos, uma moderna prestidigitação!), sermos tentados a avaliar que fé trata-se de um menu à nossa disposição e que Deus estaria a nosso serviço.

      Assim, fé seria uma espécie de "controle remoto" pelo qual accionaríamos Deus a distância, bastando escolher o menu. Touch screen, ou seja, dedo na tela: diante de nós, uma seleta opção de escolhas, um deslumbramento de escolhas, ícones de tela, que somente bastaria tocar para obter. O autor aos Hebreus escreve, adiante, nesse mesmo texto (cap. 11) que, sem fé, é impossível agradar a Deus. Dessa forma, poderíamos ser vítimas de outra interpretação equivocada, de que, então, a fé está a nosso serviço.

     Mas não: nós é que estamos a serviço da fé. Não há uma seleção de opções à nossa disposição, porém há constatação, da parte de Deus, de necessidades vitais a ser urgentemente solucionadas, colocada diante de nós a única solução, por um caminho vivo e que penetra além do véu, onde podemos entrar atrevida e ousadamente, santuário onde Jesus nos aguarda, tendo consagrado o já pelo próprio Jesus trilhado caminho de acesso e onde ele próprio penetrou como âncora de nossa alma.

     Toda essa terminologia é do autor aos Hebreus. Olhem que a palavra "véu", aqui, não é realidade ilusória, cortina de fumaça, mas cortina de outra natureza, que simbolizava a distância que havia entre Deus e o homem, mas que agora foi reduzida à comunhão por causa dos méritos de Jesus Cristo, por meio da obra única, completa e final que realizou. O principal dom da fé é este. Porém, nenhuma garantia há que esteja a nosso favor para dirimir ou solucionar eventos da realidade, da nossa realidade que, muitas vezes, revela-se traumática, podemos até dizer cruel.

      A fé de Abel, um dos primeiros a ser mencionado na Bíblia como alguém que a enxergava de modo lúcido, pois a fé desse, assim, pela Bíblia, chamado justo, não lhe prestou o serviço de evitar que fosse assassinado pelo próprio irmão. Olhem bem, ainda na primeira história que a Bíblia conta, nenhum cortina de fumaça. Livro esquisito esse, a Bíblia, não é mesmo? Chega a ser irônico que alguém que fosse, um ilusionista, um falso autor, inventasse uma história besta dessas.

  Vamos raciocinar na sequência. Supomos que tenhamos um falso autor e que a história de Caim e Abel seja inventada. Pelos critérios da história, em si, vamos avaliar o seu garu de credibilidade. Primeiro passo, temos Abel, encarado por Deus como tremendo "gente boa". Aí, aparece Caim, o cara cheio de más intenções. Ora, raciocinemos: o vilão, Caim, volta-se contra o irmão, o gente boa Abel. Deus, que acompanha o processo, pelos dispositivos da fé, empurra Abel para uma fuga e, só então, vai encarar Caim e argumentar com ele que jamais atente contra seu irmão ou quem quer que seja. E terminaria a história e a Bíblia teria dado a lição, a maior dos séculos, que todos nós devemos ser "gente boa", sem nunquinha atentar contra o semelhante.

      Teríamos uma historieta que comprovaria verdades lapidares: Deus protege os seus e evita, pela fé, que o mal da hora golpeie o bom da vez. Mas a nossa história, ainda supondo-a inventada, mostra o contrário. A fé não serve para livrar Abel de ser morto por Caim. O gente boa acaba por ser liquidado pelo vilão de plantão. Começou mal a Bíblia, evidentemente, para os prestidigitadores, sim, para aqueles que desejam demonstrar de que modo a fé garante contra eventuais pragas e acidentes de percurso. Uma leitura correta do texto nos mostra, pelo menos, duas coisas: (1) a realidade, às vezes, é cruel, e a fé pode não garantir que não seja; (2) há uma probabilidade muito elevada dessa história ser verdadeira, exatamente porque não esconde essa dureza, não constrói nenhuma nuvem de fumaça.

      A fé somente ajudou Eva nesse trauma, para suportar que seu filho mais velho tivesse assassinado o mais novo, perdendo ela os dois, duma só vez: o mais novo, assassinado, e o mais velho, tendo empreendido sua fuga. Só mais tarde, ainda por fé, vemos Eva, como sempre, orando, agradecendo a Deus pelo nascimento de Sete, na tentativa de preencher a lacuna deixada por Abel. Estão enganando você. Abra seus olhos. Veja bem que serviço a fé nos garante, quando nos colocamos a serviço dela. Não se deixe enganar e não se iluda com nenhuma nuvem de fumaça, porventura, erguida por prestidigitador qualquer.

                

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015


  Deus é amor: uma definição? Ou, outro título: ao inverso.

     Continuando com a sentença joanina, Deus é amor não somente define Deus, assim como expressa que Ele é amor para fora de Si. Isso quer dizer que não se trata de exibicionismo, ou seja, que Deus é amor por uma questão de marketing, como se precisasse definir-se por um sentimento nobre, tipo exportação e, para tanto, escolhesse "amor" como esse sentimento. Ele é amor para fora de Si mesmo. É amor porque ama, nunca deixa de amar, expressa com ações e atitudes, sempre positivas e afirmativas Seu amor e ama a todos, indistintamente, não faz, absolutamente, acepção de pessoas e, como diz o próprio Gênesis, viu todo o quanto fez, o que criou, e eis que era muito bom, portanto, Deus ama todos e tudo o que Ele mesmo criou, Ele mesmo fez. Ufa, termina aqui esse, pasmem, primeiro parágrafo.

     Portanto, de novo, se Deus é amor para fora de Si mesmo, é por isso que deseja que todos amem como Ele ama e deseja, mesmo, que todos sejam a sua imagem e semelhança. A questão a ser discutida aqui é se há outra opção, ou seja, numa possível rejeição desse modelo, digamos, divino, há outra opção? Alguém diria, não estou nem aí para esse, vamos dizer, "amor divino": vou escolher meu próprio tipo de amor e vivê-lo ao meu bel prazer, tenho liberdade de escolha, tenho livre arbítrio, meu modelo quem escolhe sou eu, nada da "tradição judaico-cristã" no meu pé, no meu perrengue, tô nem aí, tô nem aí. A pergunta é se existe vida inteligente, não para fora do planeta Terra, mas para fora desse modelo de amor. Quem não priva dessa semelhança com Deus, por opção mesmo, por escolha, quem não compartilha com Ele essa escolha, que outra opção de amor experimenta? Ou não experimenta? Ou experimenta outra coisa, bem próxima, semelhante, até, mas que não é amor? Aliás, essa "coisa" existe? Existe amor fora do amor?

    Vamos imaginar total ausência ou inexistência de amor. O que seria, num certo sentido, fácil de pressupor. Basta imaginar o inverso, ou seja, se Deus é amor, vamos imaginar a situação de "não Deus". Isto é, que Ele não exista. Se fica difícil (para alguns, é claro, muito poucos, talvez uma minoria) imaginar não existir Deus, vamos imaginar que Ele exista, mas que não esteja nem aí para essa questão de "amor", ou seja, Ele existe de Si para Si mesmo, despreocupado com o planetinha aqui embaixo. Algo parecido como a vitória total do evolucionismo: somos, sim, mas a partir da ameba existencial, hipocondríaca, Deus nunca existiu, nem nunca existirá, é uma abstração humana, uma criação nos estágios primários da civilização. Então amor seria essa coisa abstrata, sim, que criamos, que nomeamos, sim, passível e possível de, como diz Paulo em 1 Coríntios 13, de rasgos como dar a própria vida, dar todos os bens, enfim, mas que ele mesmo diz que pode ser feito sem que ocorra amor, este, o verdadeiro, o autêntico.

       Não existe Deus. Situação de não Deus. Então não existiria, evidentemente, amor, também, pelo menos na concepção joanina, porque ele afirma que Deus é amor. Numa situação de "não Deus", ocorre uma situação de "não amor", pelo menos, façamos uma concessão, na acepção de "Deus" e "amor" conforme João os define e faz equivaler. Portanto, vamos imaginar a existência humana sem amor. Vamos imaginar o inverso. E, como já existe o inimigo do Outro, o adversário, a contrafação absoluta, pelo menos uma tentativa de, não precisamos inventar. Já está nomeado: o adversário é satã, satanás, o inimigo, a contrafação, o sem amor, em estado absoluto. É claro que, para os que não acreditam em Deus, não acreditarão, também, na existência desse demônio, o principal ou príncipe, como a Bíblia o nomeia, o "deus deste século", como também a ele se refere. Em nossa experimentação, estamos tentando imaginar uma situação de existência "sem amor" e, para tal, evitando de criar aqui um ser desprovido de amor, vamos refletir sobre a inexistência ou rejeição total do amor num ser já nomeado e (re)conhecido.

       Seria o ser da rebelião, da revolta contra Deus, da negação do amor de Deus. Como está registrado em Isaías 14, esse ser queria ser Deus, mais, queria se colocar acima. Comparado esse texto a Filipenses 2, aqui está escrito que Jesus "não usurpou para si o ser igual a Deus", exatamente o oposto planejado ou almejado por satã. Fica definido o que e quem é a posição contra Deus, contra ser como Deus é, a posição, por excelência, contra o amor. O que, seria a inexistência de amor, e quem, seria satã, aquele totalmente sem amor. Não que fosse necessário, por questão de método, assim pressupor, mas é que, está constatado, posições contra o amor estão patentes na condição humana. Uma comparação rasteira, seria com os próprios e (injustamente) chamados animais irracionais, que nunca agem irracionalmente, porque seguem seus instintos, e somente são predadores em duas circunstâncias: (1) quando atacados, visando sua sobrevivência ou (2) na cadeia alimentar, quando são predadores do imediatamente abaixo, o que não é senão e novamente sobrevivência. E eles não atacam o meio ambiente. O ser humano, chamado racional, desdenha, humilha e até mata o semelhante, por motivos fúteis e, sistematicamente, destrói o meio ambiente.

       Supondo não existir Deus e o "amor" ser não Deus, em essência, mas uma idealização, uma utopia, uma abstração humana, uma linda ilusão, mesmo assim o homem não é capaz de sustentar essa suposição, esse estado ideal de coisas, essa igualdade entre si, com respeito ao semelhante, assim como uma condição de sustento e preservação do meio ambiente, a natureza que lhe é vital à sobrevivência neste sofrido planeta. O homem, que reclama que a condição de ateísmo, por si, seria sustentável e que ele, o homem, não precisa de Deus para ser bom, está provado que, com ou sem Deus, o homem, de si mesmo, não é bom. O problema do homem não é a existência ou inexistência de Deus, mas o problema do homem é ele mesmo. Mesmo que tente, não consegue ser amoroso. Mesmo para ter como muleta existencial, mesmo inventado, o homem necessita de deus (ou de Deus), mas, ainda assim, de nada adianta. Ele é um fracasso, pelo menos nesse mister de tratar o outro como igual. Pelo menos no rasteiro de só fazer ao outro o que gostaria que o outro lhe fizesse. O homem é um suicida inveterado: mata a si próprio, destrói sua relação com o outro e, de quebra, de letra, de esguelha, destrói o planeta.

          O inimigo de Deus, esse, conhecido como satã, que a si mesmo se constituiu, desejou ser Deus ou ser mais do que Deus. Desejando ser Deus, anulou, para si, o Outro.  Escolhendo ter comunhão com Deus, objetivo final da revelação de Deus e definição do que é, autenticamente falando, "igreja", conservaria, para si, o Outro. Mas desejou ser maior, acima, plenipotenciário. Na mesma carta aos Filipenses, Paulo diz que devemos considerar o outro mais do que nós: considerai cada um o outro superior a si mesmo. Marcos, no seu Evangelho, diz que Jesus não veio para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em resgate de muitos. Jesus é o servo modelo de Deus. Satã, não apenas desejou ser Deus ou ser-Lhe superior, mas rebelou-se definitivamente contra Deus ou contra as concepções, os conceitos, as opiniões e conduta divinos. Definitivamente, contra. Por isso Deus o precipitou céus abaixo e, para ele, inaugurou um novo domicílio conhecido, desde os primórdios das eras, pelo nome de inferno.

           Uma vez me perguntaram sobre inferno. Aliás, do muito pouco que conheço de Sartre, cito aquela gasta frase por tantos citada, mas, sem dúvida, lapidar, quando diz que o outro é o nosso inferno. Talvez inferno seja a anulação do outro. Fora de comunhão não existe vida. Fora da comunhão com Deus é o inferno. E, como Deus nunca obrigou ninguém (ou alguém) que não queira considerar-se igual ao outro encarar isso como essencial ao amor, quando não quer, não é obrigado a isso, não é forçado a isso. Mas céu é o lugar onde todos são o mesmo, em igual valor. Inferno, o lugar onde ficam preservados os esteios do que vemos no planeta, onde não há reciprocidade e respeito mútuos. O inferno não é aqui, mas começa aqui. Olhe ao redor. O outro não é nosso inferno, mas nós mesmo somos o nosso inferno. Por isso Jesus disse que é necessário nos anularmos. Ele disse rejeite sua vida e assuma a minha. Ele disse se alguém não perder a sua vida, perde-se. Ele disse, morra e ganhe sua vida. Continue vivendo, e perca-a. Pretendemos continuar.

sábado, 31 de janeiro de 2015


  Parecidos, sim, com quem?

             Somos parecidos. Com quem? Entre nós mesmos, ora. Não me refiro, aqui, a parentesco, que são caprichos do DNA herdado. Falo da massa humana. Somos parecidos. Aliás, o Gênesis afirma que Deus nos fez a sua imagem e semelhança. Semelhança esta perdida, é claro. Lá adiante, nessa mesma história, no Deuteronômio, Moisés afirma que somos, ou melhor, no curso dessa mesma história nos tornamos manchas. Mancha é uma deformidade. Não tem semelhança definida. Ora, ao final das contas, somos todos semelhantes nessa mesma dessemelhança.

          Parecidos com quem, afinal? Paulo, aos Efésios, recomenda-nos, sede imitadores de Deus, como filhos amados. Essa recomendação do apóstolo, mesmo sem uma exegese de ponta do texto, deixa claro que aqui, com essa palavra dele, pretende-se restaurar a condição descrita linhas acima. Paulo está afirmando, por sua própria conta e risco, que é possível, sendo amados por Deus, que somos, podemos imitá-LO. Demonstração recíproca de amor, constatação, prova cabal e final de que, amados por Deus, podemos amá-lo da mesma forma e, nessa troca recíproca, em amor, podemos imitá-lo.

           Aí vamos bater nossos costados lá no texto que, quando prego sobre ele, digo que possui a maior concentração, entre todos os textos da Bíblia, da palavra "amor". Conhecemos e citamos muito 1 Coríntios 13, o mais conhecido. Mas em 1 João 4:7-21, nesta concentração de 15 versículos, a palavra amor aparece cerca de 30 vezes, como se fossem 2 vezes a cada versículo. Na verdade, trata-se de uma aula de como "amor", como substantivo, e "amar", como verbo, como ação se tornam possíveis em nossa conduta. Começando por uma afirmação de João, isto que chamo de absoluto descuido, absurdo e reducionismo desse discípulo, ironicamente assim chamado "apóstolo do amor".

             João escreveu "Deus é amor". Ora, os judeus, como ele, de nascimento, em sua gramática, não usam o verbo "ser" como nós, por exemplo, usamos, como elemento de ligação. Se, por exemplo, um dia perguntassem a João, "como é seu nome?", ele diria, em resposta: "Eu, João". Ele nunca diria como nós, brasileiros, dizemos: "Eu sou João" ou "Eu sou o João". Lembram quando Moisés, em sua luta para fugir ao ministério que Deus queria para ele, perguntou para Deus "qual é o teu nome?" E a resposta de Deus foi "Eu sou o que sou", diga a eles, os judeus, "Eu sou me enviou a vós". Por isso, o judeu não usa o verbo "ser", porque o único que "é" é Deus, entendido?

              Daí João dizer "Deus é amor", tornar-se perigosíssimo. Por que seria reducionismo? Camarada, Deus é só amor? Quanto mais Deus é? Caramba, infinito, indizível, indefinível. Se queremos transferir essa definição para outro contexto, sem medo de errar, podemos recorrer a outro texto de João, desta vez no seu Evangelho, quando ele diz "o verbo de fez carne". Sim, verbo, aí, é logos que, no grego, significa palavra. João está dizendo nesse contexto que Jesus é a Palavra, ou seja, quer uma definição completa de Deus, queremos que toda a Palavra ou todas as palavras, se concentrem numa só Pessoa, uma definição completa e acabada de Deus, basta encarar Jesus de frente. Lembram, agora em João 14, quando Felipe pediu a Jesus, com medo da solidão, já que Jesus anunciava sua morte, ele pediu "mostra-nos o Pai"? O que Jesus respondeu? "Quem me vê a mim, vê o Pai". Que que é isso, Felipe: como você pode dizer 'mostra-nos o Pai'? Um absurdo de Felipe: quem vê Jesus, vê o Pai. Ponto final.

                Na verdade, o próprio João, em todo o seu evangelho, está se dedicando a deslindar esse nó, qual seja, dizer que Jesus é a "expressão exata de Deus" (citação esta do autor da carta aos Hebreus, confere com João) ou que "nele (em Jesus) habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (confere, aqui, com Paulo, aos Colossenses). Nessa linha aí. Então, nos desviamos do foco. Surfando nestas águas, vai indo tudo bem mas, recapitulando, desviamo-nos, ainda em João, para a ideia de que Jesus revela Deus, sem tirar nem pôr uma linha sequer a mais ou a menos. Mas o que desejamos encarar aqui é a afirmação corajosa, definição de uma palavra, para constatar que não seja absurda ou descuidada, de que seja possível definir Deus nessa única palavra "amor".

             Ora, que outros atributos, socorra-nos a teologia, Deus possui? Capítulos e mais capítulos, arranhando, aqui, as aulas de Teologia no banco do Seminário, no meu caso lá se vão quase 35 anos, Deus possui atributos comunicáveis, ou seja, que Ele, prazeirosamente compartilha conosco, concedendo-nos, esses mesmos, que nos tornarão, de novo, a sua imagem e semelhança, e possui outros atributos incomunicáveis, que fazem parte da Sua natureza, que o definem como Deus, estes, por isso mesmo, incomunicáveis. Somente Jesus e o Espírito Santo os compartilham com Deus. Por exemplo, só Deus é bom, mas nos comunica Sua bondade; só Deus é inteiramente justiça, mas nos comunica Sua justiça; só Deus é, em essência, santo, mas nos comunica Sua santidade. E assim vai nos formando, nos modelando, em Jesus Cristo, a Sua imagem e semelhança. Obra essa que, segundo diz Paulo aos Filipenses, Deus vai completando em nós até o dia de Cristo. 

            Aliás, voltando à questão "Deus é amor", podemos começar a entender essa afirmação pelo oposto dela mesma. Imaginemos um ser que não seja, em absoluto ou, raciocinando de outra forma, um ser que nunca seja alcançado pelo amor de Deus, absolutamente. Sim, esse mesmo, satanás. Ele é o oposto disso tudo. Aliás, foi o único ser que disse para si mesmo que desejava ser Deus, colocar-se, até mesmo, se fosse possível, acima de Deus: satanás, e isso define sua personalidade, quis usurpar o lugar de Deus. Ele é um ser totalmente privado de amor. Desprezou, em sua origem e, por excelência, o amor de Deus. Trata-se do oposto de tudo isso. Expulso da presença de Deus, como diz Isaías, foi precipitado ao seu próprio condomínio, no inferno, explica-nos Judas lá no finzinho do Novo Testamento, em sua esclarecedora epístola. Jesus, homem perfeito, tornou-se Deus feito homem, como diz Paulo, ainda, aos Filipenses, quando "não usurpou para si o ser igual a Deus". O oposto de satanás. Jesus, Servo, totalmente servo, enquanto satanás é todo rebeldia.

               No próximo texto, vamos adiante neste rumo, entendendo a diferença entre seres que têm em si o amor de Deus, com quem o próprio Deus reparte este que é o atributo definidor de Sua personalidade, e o estrago que representam seres em quem não se encontra, em absoluto, o amor de Deus.

         
       

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015


 Três coisas.
            Está bem. Devo estar sendo repetitivo. Mas também, sou portador de uma amnésia, digamos, funcional, digamos assim, na falta de um diagnóstico mais exato e preciso. Três coisas. Quais, mais exatamente? Três coisas bem presentes na natureza humana e francamente rejeitadas ou, para falar de outra maneira, das quais o homem procura se esconder, fugir delas ou dissimular que existam.

           A primeira delas é o fato de que somos iguais. Está aqui a repetição acusada linhas atrás. Isso porque, aqui mesmo neste espaço, já falei, um texto inteiro, sobre isso. Mas vale, vale?, a pena retornar a esse assunto. Mesmo porque, já dissemos, fugimos disso. Lutamos, desesperadamente, contra essa ideia de que cismam nos acusar, sim, porque já virou uma acusação, intriga, desplante insistir nessa tecla viciada, desafinada, emperrada, qual seja, de que todos somos iguais (diante de Deus), ou perante a Lei, ou perante os Direitos Humanos, invoquem a Biologia, a Filosofia, enfim, droga.

              Por definição, somos. Mas essa ideia de que somos é franca e plenamente rejeitada ou fingimos que não é conosco. Iguais, uma (outra) droga. É evidente de que não existe: entre pessoa e pessoa, raça e raça,  nível (é outro nível) e nível, enfim, não há igualdade, pura demagogia, é lógico. Insistir e procurar viver como se essa história de igualdade fosse exequível, verdadeira, vai acabar sendo ou virando, aí sim, uma hipocrisia. Para evitá-la, portanto, negue-se essa história de que somos iguais. E vamos em frente, assumindo, contornando, simulando, sem queimar nosso filme, mas constatando essa desigualdade.

            A segunda coisa é que somos falhos. Talvez esta constatação seja mais radical, mais difícil de negar do que a anterior. Esta, a anterior, me refiro a ela, provavelmente vamos encontrar alguém ou 'alguéns' que neguem e digam, não! Somos, sim, iguais. Idealistas. Precisamos deles ou desses. Mas esta segunda constatação é impossível de ser negada: qualquer e todo homem/mulher são falhos. Daí, talvez, inclusive, proceda a ideia de que pensar em igualdade, nivelamento idêntico, amplo, geral e irrestrito, é uma burrice. Há quem seja mais e quem seja menos falho. Há falhas enormes e falhas mínimas, portanto, impossível dizer ou computar a mesma responsabilidade indistintamente.

           Porém não estamos avaliando graus de falha ou medir qual delas, das falhas, é menor ou maior, mais ou menos danosa. O que queremos destacar aqui é que todos somos falhos. O grau das falhas, por ocasião, aqui, não interessa, em primeira instância, elas se tornarão oportunistas, dependendo do conflito em questão, vamos manipulá-las a nosso interesse. O que interessa destacar aqui é que falhas colocamos a nosso serviço, emergências a nosso critério, arma de defesa e ataque, meios de satisfação de nossas taras, enfim, manipulamos a nosso favor e, linguajar bíblico, somos concupiscentes. Segura aí a definição: "Desejo desenfreado, ambição, pecado estimulado através de três áreas do ser humano: carne (corpo físico), olhos (alma), soberba (espírito)".

            Segurem mais esta, linguajar do apóstolo João  : “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” 1 João 2: 15-17. Sim, se fora do contexto deste texto, vão desculpando aí, mas cultura bíblica é sempre bom. 

           Bem, dois pedidos de desculpa, ainda: desculpem-me usar a palavra pecado na definição copiada da net, palavra tão vista com reservas nesse contexto da mentalidade (pós)moderna. E desculpem a menção corpo-alma-espírito, coisa meio metafísica, mas a tendência é tentar dizer que todo homem/mulher estão envolvidos nessa história. Falha, concupiscência ou pecado, enfim, toma todos por inteiro, sem que haja qualquer espaço que sobre vago de sua influência (nefasta) no ser humano e em suas relações com outros seres humanos, com a natureza, enfim, enfim. Com + cupere, intensivo 'com', do latim, e 'cupere', que significa 'querer, desejar', a fusão dos dois gera o sentido de 'concupiscente', o que tem um forte desejo, 'concupiscência', ter forte desejo.

            E por último, em terceiro, somos frágeis. Para resumir a história, o cemitério nos espera. Esta parte do texto, já próxima de seu final, me lembra meu pai, que já está lá, no cemitério, ele gostava de visitá-los, enquanto em vida. E eu, quando menino, ainda antes dos 10 anos, cismava de dizer, por ser muito apegado a ele, que se ele me faltasse, dizia eu para minha mãe, eu morreria também. Então Cid, o nome dele, começou a me ensinar sobre morte. Começou dizendo que, quando ele mesmo, ainda menino, cismava com a morte, no sentido de ter muito medo dela. A família se reunia nas madrugadas, companheiros do pai dele, para trabalhar o fumo a ser vendido, enquanto bebiam o café com bolo de minha avó, contavam histórias, inclusive, de assombrações. Meu pai tinha medo, incluído o de morte.

               Somos frágeis, vamos nos acostumando com essa ideia. Já daí deveríamos ser condescendentes, uns com os outros, levando ainda em conta que somos, mesmo, falhos, iguais e frágeis. Não sabemos nem quando e nem onde a morte vai nos encontrar, vamos esbarrar com ela, por isso, então, deveríamos ser solidários. Acho que constatar essas três coisas, juntas, talvez com outra ou outras duas que, aqui, não me ocorram, bastaria para que tivéssemos, em relação uns aos outros, critérios mais justos de relacionamento. Iguais, falhos e frágeis. Poderia ser esse um ponto de partida para toda a solidariedade. 

       

  Azáfama

      O ruído de uma faca partindo pedaços de banana, na cozinha, me avisa que o dia já começou, para minha mãe, e que preciso ser rápido, neste texto, antes que o azáfama da casa me atrapalhe o raciocínio. Blog pode se tornar um vício. Escrever também. Pode virar despejo de besteiras no papel. Acho que preciso de uma terapia. Enquanto ela não vem, desabafo assim mesmo.

     Me acordei, como dizem por aqui, com uma vontade. Mas não sei ainda, direito, qual é. Só me senti, assim, sabem, como aquele número muito grande, recorde, de peças de dominó, Guinness Book, que são colocadas de pé, muito próximas, o suficiente para que alguém empurre a primeira e todas sigam caindo. No meu caso, são pedras infinitas, enfileiradas, caindo infinitamente.

      Me acordei assim. E tais peças de dominó seriam uma sucessão de ideias, quem sabe, mas não as tive, abri mão de todas elas. Outra metáfora seria dizer que me acordei com vontade de ir para um lugar onde não houvesse ninguém, nenhuma pessoa, que fosse um bosque, pronto, ou um parque, mas vazios. Ok, pássaros poderiam estar por ali na sua azáfama matinal. Mas só isso. Sem mais nenhum vivente. E ali, nesse lugar, me sentaria, abaixaria minha cabeça, inclinaria, assim, como se eu fosse orar, olhando para o chão, privando-me, de algum modo, de qualquer atenção que fosse outra, senão ficar assim e ali. Mas é mais ou menos assim.

      E nenhum pensamento me viesse à cabeça. Como se qualquer ideia me fosse atrapalhar o que não queria dizer. Ficar assim. Será que isso é meditar? Procurando ouvir Deus. Será que é assim? Junto com isso, me veio uma vontade. Mas não a sei expressar direito. É mais ou menos como se eu desejasse um novo começo, assim, do zero. Não que eu quisesse ou repudiasse todas as pedras do dominó que estão caindo, infinitamente, por detrás de mim, como se fossem os elementos, todos, de minha existência até exatamente este momento.

      Não. Não retiro nenhuma pedra. Mantenho essa mesma sequência e não abro mão de não retirar nenhuma pedra. Isso por causa de Jesus, porque Ele resgatou toda a minha existência, perdoou todos os meus pecados, então, não vou ficar selecionando pedras e rearrumando a sequência que vem em seu curso, uma atrás da outra, a de trás derrubando a da frente. Zerou. Se pudesse dizer o que de mais extraordinário poderia, então, ocorrer, neste exato momento, não neste, da escrita deste texto, mas esse, da reflexão proposta no texto, eu diria que desejaria, então, converter-me. Isso.

      A experiência da conversão é tão fundamental e fundante de tudo, que era para que se repetisse sempre. Mas é desnecessário. Aliás, sou convertido, para quem? Quem teria a coragem de constatar isso? Quem assinaria embaixo? Jesus, e com tinta de sangue, diz a Bíblia, e no meu coração. Não vai dar para nenhuma outra pessoa ter plena certeza, vão desculpando aí. É muito íntimo. É só entre eu e o Altíssimo. Vão desculpando aí.  Essa experiência, de conversão, ninguém tem nada a ver com isso, senão aquele, ou seja, qualquer um, e Quem. Quem? O Altíssimo. E eu não pensaria nada. Não me viria à mente nada. Seria um novo ponto de partida.

       Seria uma oração na qual eu não diria nada. Porque se dissesse, estaria condicionado, estaria meio que amarrado a qualquer coisa lá de trás. De onde vêm as pedras do dominó da vida, a de trás, empurrando a da frente. Se eu pudesse, eu teria esse momento. Seria como uma nova conversão. Seria bom que a cada momento houvesse conversão. Desnecessário. Desnecessário?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014


  Capazes em seus limites.

           Paulo, de novo ele, na sua segunda carta aos Coríntios, expõe, num comentário seu, um princípio geral de ação que ele mesmo aplicava a sua atuação, como ministro de Deus, mas que (esse princípio) se aplica, de modo geral, a uma ampla esfera da vida. É ele (o princípio) que vai escrito na referência 2 Co 10:13: "respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos demarcou". Trata-se, enfim, de um princípio geral, genérico, de ampla abrangência a todas e qualquer área do relacionamento humano.

               Ou seja, um regime totalitário, por exemplo, jamais vai aplicar esse procedimento no contexto de sua atuação. Não vai respeitar limites, apenas estabelecer seus próprios interesses, cercar-se de uma máquina de ação que os implemente, e seguir adiante, sem que seja questionado por qualquer desatino que houver perpetrado ou sem que consulte os governados a respeito de opções ou escolhas que cabem o povo decidir. Por outro lado, um regime não autoritário terá prazos, submeter-se-á a escrutínios periódicos para sua renovação no poder, terá câmaras para as decisões a tomar, enfim, terá suas esferas de poder e atuação claramente definidos, sendo cioso por manter-te eticamente defensor desses justos direitos.

               Um sistema de governo com respaldo jurídico qualquer, da atualidade, por exemplo, séculos e séculos de história pregressa para que se estabelecesse, passando por sua gênese na Grécia Antiga, suas experimentações no tempo do Império Romano até que, por ocasião da Revolução Francesa, tomasse a forma que chegou aos nossos dias, ganhando o nome genérico de democracia, precisa, precipuamente, respeitar o princípio acima mencionado pelo apóstolo em sua carta, qual seja, respeitar o limite de sua esfera de ação. Nos sistemas jurídicos ficam muito bem e sensivelmente definidos os limites de ação. Ultrapassá-los significa transgressão da norma, transgressão da lei, sujeita a penalidades de leis específicas que resguardam o trânsito dentro desses limites previamente definidos, ou seja, leis que resguardam leis.

                       Limites. Na Bíblia, por exemplo, novamente, no Antigo Testamento, em Israel havia um padrão de conduta legal, que os profetas cobravam dos reis, principalmente, mas que servia como padrão para todos, principalmente juízes, sacerdotes, anciãos, enfim, autoridades, coisa de cima para baixo, mas que igualava todos, incluído o povo, que era o mispat e o tsedaqah, traduzidos no português 'juízo' e 'justiça'. Uma leitura, verdadeira busca por seus significados nos dicionários bíblicos, comentários ou enciclopédias vai indicar mispat como o padrão divino de justiça e tsedaqah, o padrão humano de justiça, numa frequente busca por sua efetiva aplicação de modo o mais próximo do perfeito que fosse possível.

                  Jeremias, profeta do século VI a. C., indicava o rei Josias como aquele que, efetivamente, praticou o mispat e o tsedaqah em seu governo. Basta lembrar que ele pôs abaixo os templos idólatras construídos desde a época de Salomão que, por si só, constituíam-se num marketing permanente da idolatria, ainda levando-se em conta que seu próprio autor tinha sua auto-imagem própria de rei sábio (em termos) e, por isso, nenhum rei anterior, até os dias deste aqui citado, teve o mínimo de coragem de fazer o que Josias, em seu curto período de governo, fez. Nas palavras do profeta, ele 'exercitou juízo e justiça', isto é, asah, fez, realizou, estabeleceu (a todo e qualquer preço) mispat e tsedaqah.

               Josias invadiu os limites do clero de seus dias, os sacerdotes, não lhes respeitou a esfera de ação, simples e objetivamente porque eles mantinham o marketing da idolatria, por pura conveniência. Josias promoveu uma revolução cultural e religiosa em seu tempo, alterando costumes que vinham de anos, pelo menos séculos atrás, profanando os túmulos de todos os sacerdotes que serviam naqueles templos delivery idólatras, para queimar-lhes os ossos nos altares dedicados aos seus ídolos de intimidade. Escandalizou muitos, desafiando o status quo de seu tempo, contra os que não tiveram coragem de desafiar seu poder político e autoridade espiritual, visto que, como diz o segundo Livro das Crônicas, ele, desde muito cedo, porfiava por seguir a Lei do Senhor, desde sua pré-adolescência, ficando, então, comprovado, que é possível vida inteligente já desde essa fase da existência e, ainda, entender em que limites por que Deus deseja ver pautada a conduta de um rei (ou qualquer autoridade do mesmo caráter de Josias). Desde a pé-adolescência, aliás, Segundo Crônicas diz, antes até, é possível ter padrão de conduta dentro de limites.

                Limites e esfera de ação. Passeando pelas Escrituras, ainda, poderemos aplicar esse amplo conceito de Paulo, rastreando sua falta ou presença, quando e de que modo deveria ser aplicado. O primeiro casal, por exemplo, a eles foram estabelecidos limites. Quando questionados, não souberam guardar, de si e para si, sua esfera de ação. Invadiram e deixaram-se invadir pela esfera do mal, pensando poder manipulá-lo, ilusão que, até hoje, o homem, genericamente falando, mantém: não é possível manipular a maldade ou servir-se dela como arma de ataque, defesa ou, domesticada (se é que isso seja possível), dela servir-se para 'benefício' próprio. Ela vai se voltar contra si mesmo. Os limites do homem deixaram de ser o Jardim, expulso que foi para o limite exterior, para suar, cansar-se, pecar, penar, sofrer e morrer por isso. Violou-se o homem, violado foi, violado está, prostitui-se no e com o mal, portas escancaradas, sem que se contenha, a não ser que se permita, por Deus, impor-se limites. Santidade é impor-se limites.

               Abraão adquiriu limites ao negociar com Efrom, o heteu, uma parte da terra onde sepultar sua morta, a amada Sara. Negociou sabiamente com eles e lhes adquiriu a porção que, simbolicamente, passou a ser possessão na terra que, futuramente seria a morada de seus descendentes e que, até hoje, é disputada, exatamente para uma definição de limites. Deus prometera a Abraão que seus descendentes a herdariam, após luta de conquista, porque, na leitura bíblica, os antigos moradores, a família dos amorreus em suas designações mais específicas, a tinha profanado. De novo, repetição, falta originalidade na ação do mal, porta escancarada, permissividade, eles se permitiram violar-se num disfarce de religiosidade, idolatria, que é construir para si o deus que se quer, para se permitir violar, entrada e saída do mal sem pedágio, mas com ágio de um peso real de dívida não paga e condenação da própria consciência. Mais uma vez uma discutível questão sobre limites impostos por Deus e não respeitados pelos homens.

                Mais adiante Moisés, não esse do cinema, mas o do Êxodo mesmo, de verdade, o segundo livro do Livro, esse Moisés invadiu os limites de Faraó. Ele, que nascera como legítimo descendente da realeza, mergulhou numa tremenda aflição pessoal em seu exílio em Midiã, casou com uma das filhas do sacerdote de lá e, tendo Deus com ele provocado um encontro no Sinai, experiência da sarça que ainda arde, chamado por e para Deus, voltou ao Egito como escravo, para só assim ser usado, por esse mesmo Deus, para invadir os limites do Faraó, não lhe respeitando a esfera de ação. Faraó oprimia o povo que Deus chamava de seu. Deus, então, resolveu intervir, no Seu (de Deus) tempo. Para isso, enviou seu (formalmente, o primeiro) profeta para, propositada e propositalmente, roubar a paz de Faraó e do Egito, potência daquela época.

              Foi Moisés, posteriormente, o mediador da Aliança do Sinai. Ficavam explícitas, no Decálogo, a Constituição, e nos demais códigos, o Civil, no Êxodo, o de Santidade, em Levítico e o Deuteronômico, no livro de mesmo nome, onde Deus queria chegar no ensino do povo para orientá-lo na busca de Seu (de Deus) mispat e tsedaqah, trocando em miúdos, do senso de justiça de Deus e seu equivalente humano, a justiça do homem, baseada na fé, legado de Deus para ele. É uma questão de limites. É uma questão de esfera de ação. Atritos são a matéria de nossa vivência e de nossas relações. Ficam as marcas desses atritos. E o benefício é quando invadimos os limites e não respeitamos as esferas de ação, mas quando é para deixar claro, para marcar, que tal ou qual conduta está fora do mispat de Deus, ou seja, está fora do conceito divino de justiça. Seria uma 'invasão do bem' e 'para o bem', benefício em trazer para o mispat e tsedaqah de Deus, sob denúncia, uma conduta que não tem o selo de Deus. Profeta é aquele que invade os limites, quando não são aqueles delimitados por Deus. Assim fez Moisés com Faraó.

             Como mencionava um amigo meu, frequentemente, citando Chico Buarque, numa definição deste do que seja profecia, 'perturbar a paz e pedir o troco', por estar fora da esfera e do limite de ação que Deus estabeleceu. Deus quis se misturar ao homem, mesmo pecador. Isso se chama comunhão. Deus se fez homem na pessoa de Jesus. De outra forma, não haveria comunhão, porém um simulacro dela. Deus invadiu nossos limites, reduziu-se ao que nos tornamos: 'tornando-se em semelhança de homens e, reconhecido em figura humana, a si (este é Jesus) mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz'. Para em sua carne, na carne de Cristo, no corpo humano de Cristo, trazer-nos para dentro dos limites de Sua santidade, expurgando em nós (e de nós) o pecado. Como diz Paulo, 'Deus condenou na carne (de Cristo) o (nosso) pecado.'

              Ministros. Paulo chama a si mesmo ministro. Há de toda a espécie, no caso de Paulo, ministro de Deus. Ministro significa servo, ministrar significa prestar serviço. Minister em latim significa criado, servente. Curioso, que a raiz minus vai gerar palavras como menos, menor, miniatura, minúsculo. Desculpem aí, vão desculpando aí os que achavam que ser Ministro era coisa alta ou grande. Alguns ministros, a seguir, desculpem, em minha ignorância, não citar brasileiros entre os que tais, menciono aqui Wiston Churchill, Primeiro-Ministro da época da 2ª Grande Guerra, dentro de seus limites, em tempos de emergência, para invadir os limites do Reich nazista. Golda Meir, Primeira-Ministra, dentro de seus limites, lutava pela preservação de Israel, na disputa dos limites, no contexto da luta fratricida entre israelenses e palestinos. Ministros são servos.

             Moisés se fez ministro de Deus, na luta por desafiar um império e seu Imperador, para trazer o povo para a liberdade fora e para dentro dos limites de Deus. Moisés nasceu Minstro, no sentido político, mas Deus só o usou como ministro dele, quando menor, quando de sua identidade como escravo, junto com o povo cativo. O autor de Hebreus afirma que, em Moisés, agia o 'espírito de Cristo que nele estava'. O que torna possível a um homem/mulher manter-se dentro dos limites de Deus? Há no Brasil exemplos de Ministros, heróis e exemplo de vida, na área política, que tenham se mantido dentro desses limites? Ou nessa latitude não há heróis, porém simulacros de homens? Sem exageros. É claro que há homens e mulheres, muitos, milhares, milhões de e com caráter no Brasil, mas, muitas vezes, nem sempre aqueles apontados como heróis, porém uma legião de anônimos.

          Seja na esfera política, seja na esfera da relação e comissão divinas, seja na personalidade de homens e mulheres de Deus, assim reconhecidos(as), manter-se na sua esfera de ação, dentro dos limites que Deus estipula, é marca de bem estar, de benefício, de bênção, de bom exemplo a ser seguido, marca de profecia e marca de promoção e convite à comunhão com Deus, marca de santidade. O Deus que estabelece limites, como fez no Sinai, que não era para que fossem transpassados, mas que convida a compartilhar com Ele a Sua imagem e semelhança, numa comunhão igual àquela de Pai e Filho, Deus e Jesus, nEles, igreja, esse Deus nos convida para dentro de seus limites, porque o sangue de seu Filho, Jesus, nos abre caminho, como diz o autor de Hebreus, 'por novo e vivo caminho, consagrado através do véu (rasgado) que é Sua (de Jesus) carne'. Venha para dentro desses limites. Dentro dos limites de Deus.

                                

          

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014



Raiz de todos os males.

         Da série pequenos comentários sobre pequenos textos bíblicos dentro ou fora de contexto. Esta última observação não indica que será descontextualizado, mas que o leitor considere em abrir o Livro e buscar o contexto do texto, sempre mais enriquecedor, de modo a ampliar a visão do assunto exposto. No caso, lá na carta a Timóteo, capítulos finais da primeira, assim escrita, quando o é assunto dinheiro, quer dizer, muito dinheiro, porque o apóstolo fala no coletivo, citando o vocábulo 'riqueza'. 

         Sutilezas de cultura geral, filargyria, uma palavra só no grego, 'amor ao dinheiro' é a raiz de todos os males. Quando eu estudava lá no Seminário, idos de 1978-1981, um meu professor, comentando esse texto de Paulo a Timóteo, opinou ser um exagero dizer, pleno, que 'o amor do dinheiro é a raiz de todos os males'. Aliás, interessante o 'do' no lugar do 'ao', quanto citamos de oitiva e dizemos que é 'amor ao dinheiro'. Acho que como está lá, indica o amor que tem origem no dinheiro.

          Olhadela despretensiosa na internet, google, vai indicar num dos sites que tal preposição, 'de', tem pelo menos, 20 significados. É claro que um gramaticista vai indicar mais, mas vamos ficar aqui com o significado 'origem', supondo que esse amor de que fala o apóstolo tem sua origem no dinheiro. Vá lá que seja, ele, o dinheiro, por sua quantidade na mão de quem possui, gera um tipo de amor, quem sabe ao próprio dinheiro ou ao poder que ele sugere, aos bens que ele pressupõe, enfim, desencadeia um processo que, caso vire apego, paixão, senhorio, é raiz de todos os males. Descontrola, desnorteia, enfim.

            Agora, meu professor, na época, comentando o texto, a disciplina era Análise do Novo Testamento, achou que era exagero o pronome associado, na tradução, à palavra 'males': todos os males, portanto. Ele achou que seria males demais, males para caramba. Todos, generalizante, inclusivo ao extremo, afinal de contas, todos é todos, por definição, era englobar, incluir, nada, nenhum mal que fosse deixado de fora. Também coitado do dinheiro, culpado de tudo, e, afinal, de novo, injustiça seria, porque pelo menos uma quantidade extra de males ficaria de fora e teria sua origem em outra(s) circunstância(s).

            Está bem, que seja. Mas o presente arrazoado quer, exatamente, destacar aquilo que, de modo claro e direto diz o texto, sem maiores firulas exegéticas. Amor do dinheiro provoca males para caramba, se não forem todos, fica bem perto. Ou, formulando de outro modo, bastam esses tipos de males para dar fim à humanidade, instaurar a cobiça que gera uma gama enorme de ódio, provoca e banaliza variados tipos de morte e, como corolário (sempre quis, um dia, escrever esta palavra, que conheci, pelo primeira vez, num livro de matemática), o enriquecimento de poucos, à custa de toda essa desgraça, a desgraça de muitos, a desgraça de uma maioria. Para que haja poucos ricos, é necessária a pobreza e miséria da grande maioria restante de gente e, para equiparar todo mundo, utopia besta esta, seriam necessários mais 3 ou 4 planetas terra, pelo menos, deu na internet.

           Em sala de aula, algumas vezes, em doses homeopáticas, intervalos de currículo, eu despejava alguns comentários, desses que visam fazer pensar ou mudar mentalidades, ou incutir ou motivar alguma virtude, em lugar de vícios e, quase sempre, ao comentar sobre drogas e seu uso, eu dizia que corre solto no mundo e o maior ganho de dinheiro, nessa ordem, pelo menos na época em que fiz esse comentário, ganho do lucro com dinheiro, no mundo, vinha da venda de armas, em primeiro, do comércio de drogas, em segundo, e, curiosamente, do roubo de obras de arte, em terceiro. 
            
          Venda de armas, para puro extermínio do semelhante, o mais forte para o mais fraco e, caso o mais fraco queira ou suponha defender-se, arme-se também. Guerras, por aí, testes ao vivo e em cores, máxima tecnologia, aviões não tripulados, testes para tanques de guerra do mesmo modo, mísseis guiados por computadores de bordo minúsculos, cálculos de acerto do alvo nem visto, enfim, toda uma tecnologia de ponta em serviço do extermínio. População civil, opa, foi mal, era para ser cirúrgico, mas não deu, falha deles.

          Venda de drogas, o barato, o glamour dos anos 60, cara, anos dourados, a TV projeta mundo afora, a telinha, quem diria, catapultou-se, transmudou-se, hoje aparece diminuta, touchscreen, na ponta do dedo de qualquer criança, a geração que chega com a nova linguagem que eu desconheço e tenho dificuldade de compreender, assimilar, aprender e utilizar. A telinha ao alcance de tantos e quaisquer. A TV anos 60 mostrou o barato das drogas, Vietnam, Woodstock, tudo se misturava e tornou-se pretexto, sempre foi a droga pela droga (e continua sendo), mas bastaram pretextos, ácido lisérgico democratizado, acessível, verdadeiro ópio do povo, até que cheguem as drogas mais recentes e usuais e suas derivadas, como cocaína, o próprio crack, como rescaldo, e todos os demais extasis da vida. Com entrega delivery, que já é não tão nova modalidade. 

         Dá dinheiro, velho, então, escrúpulos às favas. E a natureza? Ela agradece. Por causa do lucro, poluam-se rios e oceanos, líquidos em tons de verde escuro ao cinza, multicores, sejam despejados nos mananciais, florestas sejam postas abaixo, para dar lugar a mais indústrias, a maiores plantações, a toda a exploração do subsolo que resta, o apocalipse já começou. Parem de ridicularizar a Bíblia, porque a Besta é o homem. Anticristo e falso profeta ele já é. Falso profeta, 98% dos políticos já são, por causa do lucro. Talvez percentagem pouco maior, pouco menor. Anticristo, por pura demagogia, fala-se muito nEle, digo, no verdadeiro, talvez e principalmente agora, nessa época natalícia, mas é pura demagogia.

             Supondo que tudo o que está na Bíblia a respeito dele, Jesus, seja pura fantasia, mesmo assim não vale a pena pôr em prática. Portanto, sejamos anticristos. Não abertamente, é claro, ninguém tem essa coragem e esse  desplante, esse cinismo, camuflemo-nos, pois, hipocritemo-nos, hipocrizemo-nos, caramba, qual é mesmo o verbo, enfim, ponhamo-nos máscaras mil, sorrimos, sorramos, sorremos, até quem professa, de boca, sua fé, camaloneie-se, camalonear-se, ou será camaleãonezar-se, enfim, neologismos ou tentativas à parte, anticristos, quantos somos? Por lucro, ou por qual outro pretexto? Vale a vantagem de ser. Quem não for, cara, tem desvantagem nessa brutal luta leão do dia a dia. Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo, foi esta a desvantagem do apóstolo Paulo na sua luta do dia a dia.

            A raiz de todos os males. Basta esse amor do dinheiro. Há mais males, é claro, por aí. Não seja pessimista, há males a granel. Mas, por pura economia, aqui nos detivemos nesses que provém do amor do dinheiro, bastantes para matar o suficiente, por e com todo o plantel de armas, desgraçar, com lucro doido, pelas drogas, a vida de muitos e, por si, suficientes para dar fim à natureza, por pura poluição e ambição do lucro. Homem, esse único animal em extinção, vai carregar consigo seu semelhante e toda a natureza a sua volta. O Éden às avessas. O paraíso não é aqui. Definitivamente.