sábado, 12 de fevereiro de 2022

Rumo ao Juruá 3

     Não dá para continuar nenhuma narrativa sem se determinar no seu Zeca.  De nome mesmo Antônio Ramos da Silva, filho de José Ramos da Silva e Angélica Ribeiro da Silva, sua mãe, de quem cuidou até seu derradeiros dias, com 97 anos.

    Conhecia bem a história e método de como, após o circuito pela mata, colhendo seringa no corte calculado e medido com ciência, em sua profundidade, nas seringueiras, como era iniciada a defumação, mas aquela bem feita, sem barro ou palha de bananeira largada de propósito, na pela, para roubar no peso.

     Para seu Zeca, a falsificação do início da defumação foi uma das causas da falência da  borracha no Acre e no Amazonas. Perdeu-se a credibilidade nos comerciantes em todas as praças. E isso com mais a biopirataria de Henry Wickham que, bem no início do século passado, consequentemente marcando o fim do 1o ciclo da borracha, roubou 70 mil sementes de seringueira em 50 cestos.

    As colônias inglesas na Ásia desbancaram, definitivamente, a Amazônia, na produção do látex. Seu Zeca conheceu todos os municípios do Acre, seja no Vale do Juruá, Envira ou rio Acre, até Boca do Acre, AM. Trabalhava num seringal no Riozinho das Minas, em Guajara, também AM.

    O circuito pela estrada de seringa, que compreendia a rota natural de disposição, em sequência aleatória, da seringueiras, começa às 1h ma madrugada. Faz-se o corte, fixa a começa de metal, completa-se o ciclo e retorna-se, esvaziando o leite na lata maior que o seringueiro carrega consigo.

     Munido de espingarda, com a luz da poronga, que é uma lamparina com espelho, uma aba de metal por detrás do foco da chama, projetando luz para a frente do caminho. Ouvidos atentos e todo destemor, para reconhecer os ruídos da mata e não sair por aí dando tiros a esmo. A gente se realizou em meio a tantas pistas e perguntas sobre Cruzeiro, sua história e o traço seringueiro de sua cultura.

     Seu Zeca explicou como, na volta à colocação, que é uma cabana rústica, de três cômodos, com cozinha e o espaço para defumação num anexo, é o lugar onde um eixo de madeira será posto transversal a uma fogueira, num quadrado esculpido no chão, para dali subir a fumaça que defuma o látex, até virar o pacote negro de borracha denominado pela (com /é/).

     Aí que mora o perigo, ensina-nos seu Zeca. Para dar início ao processo que cai gerar uma pela pura, com 100% de látex, para um peso exato que, numa quantidade brutal de estoque, ao final, gramas ou quilos surrupiados vai gerar diferença, era necessário usar palha de banana ou mesmo regar com látex novo o começo do processo.

     O girar do eixo de madeira, por sobre o qual se derrama o leite, exposto ao vapor que o fixa e dá forma, vai gerar a pela de borracha que, porém, não pode manter em seu interior, quando o eixo lhe for retirado, restos da palha de banana. Por isso, ou se inicia a defumação com látex novo e de preparo específico, ou se for com a palha da banana, terá de ser retirada ao final, para não condenar a pela como corrompida.
     Muito bem entregue aos cuidados de seu Zeca o acervo do Museu do Fórum. Ele é um zeloso cuidador e arquivo vivo de sua história, daquela do próprio Fórum e de traços vivos da história de Cruzeiro do Sul. Vale muito a pena prosear com ele. Siga, pelo link abaixo, no You Tube, voz e testemunho dele.



Nenhum comentário:

Postar um comentário