sábado, 9 de maio de 2020

O específico da igreja

     O específico da igreja é o poder de Deus. Paulo Apóstolo, na 2 Tm 3,5, descreve a seguinte situação: "...tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder".
     Esclarecendo o sujeito oculto e o pronome pessoal, vamos saber quem são os atores: "tendo" refere-se a um determinado grupo de pessoas, cuja (1) prática e (2) momento definido de atuação estão indicados pelo Apóstolo.
    O pronome oblíquo "lhe" refere-se a Deus, donde se deduz que os que têm "forma de piedade" negam a Deus o poder. Trata-se de uma forma simulada de ser igreja.
     A Bíblia não confunde igreja com instituição, no sentido humano. Ela também não nega sua presença no mundo. Aliás, o essencial da igreja é sua presença no mundo.
    Jesus mesmo, que chama a si a formação, concepção e pertencimento da igreja, quando diz "edificarei a minha igreja", afirma também que ela "está no mundo", mas "não é mundo".
    Caso a igreja perca a dimensão da atuação do poder de Deus nela, perde a sua identidade. Ela não atua com poder próprio, em nome de Deus.
    Neste caso, será instituição humana, simulando o poder de Deus. Caso o poder de Deus nela atue, será legítima instituição de Deus, atuando no mundo suprida pelo poder de Deus.
    Interessante a questão da última pergunta dos apóstolos no ato da ascensão de Jesus aos céus, após os 40 dias de ressurreto, período entre a crucificação e o Pentecostes.
    Ali eles perguntaram a Jesus, porque era a preocupação deles, sobre a restauração do reino a Israel. E Lucas afirma, no mesmo contexto, que o assunto dos 40 dias de aparição intermitente havia sido o reino de Deus.
     Portanto, três tópicos de assunto estavam em questão: (1) o reino de Deus, assunto de Jesus nos 40 dias; (2) o reino de Israel, pergunta e inquietação dos apóstolos; e (3) a igreja, que surge como reposta, na argumentação final de Jesus.
   Ele afirma "recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e me sereis testemunhas", At 1,8. O específico da igreja no mundo é (1) ser testemunha de Jesus, (2) no poder do Espírito Santo.
    A Igreja vai se orientar pelo poder de Deus, será suprida pelo poder de Deus, vai anunciar e vivenciar no mundo o poder de Deus com uma única finalidade: testemunhar Jesus.
    Definitivamente, a partir da argumentação de Jesus que, em relação a "reino de Israel", "reino de Deus" e "igreja", para esta última, o Mestre, em sua despedida define, então, uma dupla e específica função.
    Diz: (1) recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo; e (2) sereis minhas testemunhas. Igreja, portanto, define-se nisto: poder, com origem no Espírito Santo, para testemunhar de Jesus.
     O diferencial é que o poder, de origem específica no Espírito Santo, tem uma finalidade específica: testemunhar de Jesus. Nessa conversa emergencial, no exato momento da ascensão de Jesus, os elementos em discussão pressupunham poderes.
    Vejamos: reino de Israel pressupõe poder humano, autonomia de governo, política de Estado; reino de Deus, o assunto intermitente dos 40 dias, pressupõe governo, autoridade e poder de Deus; igreja, finalmente, pressupõe poder do Espírito para testemunhar de Jesus.
     Realmente, convenhamos, o conceito de "poder" é muito variado. Aliás, historicamente, a igreja já se equivocou soberba e soberanamente errando a distinção entre "poder de Deus" e "poder humano". Já foi igreja "em nome de Deus", oprimindo por poder humano.
     Jesus, que disse "edificarei a minha igreja", como diz Pedro, é "Senhor e Bispo" dessa mesma igreja. Jesus é o dono da igreja. Ninguém mais. Nem a igreja é dona da igreja.
    A Igreja é serva de Jesus, primeiramente, para estão prestar serviço à humanidade, como sinal do e para o reino de Deus. Certa vez interrogado, pelos fariseus de seu tempo, sobre "quando" e "como" viria o reino de Deus, Jesus respondeu: "não vem com visível aparência: já está dentro em vós".
      Nesse sentido, reino de Deus dentro de nós, é que a Igreja se constitui num sinal do reino de Deus. Prefigura, antecipa e, por si, já é indicador atualizado dessa realidade.
    Nesse sentido, igreja não serão as instituições assim denominadas. Clique em seu GPS "Igreja" e ponha qual a identificação, para encontrar a sede, o lugar geográfico de qualquer delas.
    Clique num site jurídico qualquer e escreva "Igreja", para encontrar a identificação legal dela, estatuto, ata, diretoria e CNPJ. Essa é sua definição jurídica.
     Abra a sua Bíblia para compreender a feição autêntica e espiritual dela. São legítimas as suas pretensões geográficas e jurídicas. Representam o status físico de sua existência.
    Mas a autenticação dela é espiritual. Com isso, quero dizer que é divina. Somente tem aval da Pessoa que a edifica, sobre Si mesmo, como disse Pedro, "pedras vivas edificadas sobre a Pedra angular", que é Jesus, como santuário espiritual dedicado ao Senhor. Definitivamente, o divino e o humano se encontram na igreja. Mas o poder é exclusivamente de Deus.
      Pode haver localização de GPS e registro documental, sem que seja igreja, espiritualmente. Pode haver igreja, espiritualmente, sem lugar geográfico definido ou registro documental.
    A chamada "igreja primitiva" tinha endereço flexível, fosse nas varandas do Templo, em Jerusalém, imitando o lugar onde Jesus se acostumou a se reunir com eles, ou em casas, como na noite em que Rode foi surpreendida com as pancadas de Pedro no portão.
       Há instituições menos igreja do que deveriam. Há igrejas que se fazem instituição para ainda melhor servir. Há igreja que se envolve em desafios sociais sem deixar de sê-lo. Há grupos que perderam o sentido de sua vocação, envolvidos em atividades que fogem ao específico da missão de ser igreja. Deixaram de ser.
      Igreja, permanentemente, é ação do poder do Espírito Santo no homem/mulher para o específico de testemunhar Jesus. Se não houver essa natureza de poder, não é igreja. Caso não ocorra o específico do testemunho de Cristo, não é igreja e não há poder do Espírito.
       O problema está em associar a marca típica do Espírito Santo, "não por força, nem por violência", com o expediente humano. Agenda humana e o específico de sua atuação, muitas vezes, requerem poder e expedientes humanos.
     Não quer dizer que a igreja não possa se engajar em agendas e expedientes humanos. Pode. Mas sempre haverá um limite além do qual, como igreja, não poderá avançar. O jugo será desigual.  Mormente pela natureza divergente de poderes em jogo e a finalidade específica de cada poder.

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