sábado, 16 de fevereiro de 2019

AS HISTÓRIAS QUE MEU PAI CONTAVA

 Por Quintelinha

" Meu nome é Theodoro Sólon Quintela. Meu pai chamava-se Boaventura Alvino Quintella. Nasceu em 14 de março de 1889 em um lugar chamado Vila do Conde, no estado da Bahia. Segundo ele mesmo contava, era beira-mar e próximo da capital, Salvador. Tanto que ele conhecia muito bem a capital. Falava do Cais, Varal da Barra, Elevador Lacerda, Cidade Baixa e Alta, etc.

 Sobre a sua ascendência, falava do seu avô materno, que segundo ele chamava-se José Rodrigues de Quintela, que era português. Ele não falou, pelo menos que eu me recorde, de qual lugar de Portugal ele era.

 O avô haveria falado para ele que tinham vindo para o Brasil dois irmãos: ele e um outro, que meu pai não sabia o nome, mas que teria ido para um outro estado do Nordeste brasileiro.

 A mãe de meu pai, Clara Quintella dos Reis, casou-se com o pai de meu pai que se chamava Antonio Alvino dos Reis e era oriundo do interior do estado da Bahia, possivelmente Alagoinhas.

 O avô de meu pai, José Rodrigues de Quintela, pelo que meu pai contava, tinha três filhos de nomes Eron, e Antonino e minha avó Clara. Eu não sei o nome completo dos tios de meu pai. Um deles, que eu não sei qual, tinha um filho que se chamava Flávio e que trabalhou em uma firma inglesa. Começara a trabalhar nesta firma como caixeiro interessado e depois se tornou sócio-gerente. As últimas notícias que meu pai teve dele era que a firma que ele trabalhava encerrou suas atividades no Brasil e ele teria se estabelecido por conta própria, abrindo um estabelecimento do ramo de confeitaria e, posteriormente, uma filial no Rio de Janeiro.

 Meu pai tivera além dele, mais cinco irmãos. Beda, a irmã mais velha, que quando se casou foi o primeiro casamento civil do lugar deles, Leonardo, José e Isabel.

 Meu pai, ainda muito jovem, foi trabalhar no Sul da Bahia, em Ilhéus e Itabuna, na lavoura do cacau. Isto em companhia de mais dois irmãos: Leonardo e Elizeu. Trabalharam na fazenda do Coronel Mizael. Isto, mais ou menos, pelos anos de 1907 a 1910. O irmão, mais Leonardo, já estava montando uma fazenda de cacau. Já estava bem começada.

 Ainda em 1910, não sei em qual mês, meu pai recebeu uma carta do pai dele. Na carta dizia que o Alexandrino havia chegado do Amazonas e havia ganho muito dinheiro na borracha. Estava convidando eles para vir cortar seringa na Amazônia, na região do Acre.

 Aqui vale a pena contar um pouco da história do alexandrino que era primo do meu pai. Saíra de casa para entrar na Marinha de Guerra, o que fizera, e assim passou um tempo longe sem que os parentes soubessem notícia dele. Ocorreu que o navio que ele viajava chegou a Belém do Pará. E coincidiu de ser um tempo que se ele quisesse podia “dar baixa” da Marinha.

 Como em Belém não se falava de outra cousa senão o dinheiro que se ganhava cortando as seringueiras por toda a região amazônica, ele se empolgou e deixou a Marinha e, em seguida, arranjou um patrão e viajou de Belém em um gaiola (navio) rumo ao Acre.

 Chegando ao Acre fora cortar seringa na região do Xapuri. Quando veio a revolução acreana fora convidado a participar o que aceitou e participou efetivamente por um certo período. Quando houve uma pausa na revolução eles voltaram a trabalhar na seringa. Como passaram um bom tempo esperando a nova convocação e não acontecia, eles, os companheiros deste seringal, resolveram sair do território em litígio, indo cortar seringa no Seringal Novo Andirá, que já estava em terras do estado do Amazonas, portanto em terras, de fato e de direito, brasileiras.

 No Seringal Novo Andirá cortou seringa por um bom tempo, quando resolveu voltar à Bahia e à terra dele.

 Queria vender a borracha para o patrão, que era o saldo que ele havia conseguido em um bom tempo de trabalho. Dava por três contos de réis, mas o patrão não quis e disse: “Você vai descer, desça em cima dela” – expressão usada quando o seringueiro embarcava a borracha que lhe pertencia por conta própria.

 Quando ele chegou em Belém a borracha tivera uma alta de preço bastante acentuada e ele fez dez contos de réis.

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