sábado, 23 de abril de 2016

Mal traçadas linhas 21


         Festa.

         "Com quem será, com quem será, com quem será tra-lá-lá lá-lá casar". Ouvi ao me deitar, deveria ser cercanias das 22h. Pela madrugada, levantando para tomar uma água, entre outros que tais, avistei os restos da festa.

         Num terraço, no Bairro Guanabara, ampla vila de casas que, quando cheguei aqui no bairro, para morar no 3o andar de edifício ao lado, em 1967,  já existia. Entrada ampla, que se bifurca numa conexão com mais três ruas sem saída, com calçamento dos velhos paralelepípedos de granito e casas estilo anos 60, condomínio fechado, um must para o Méier desses idos anos.

         O terraço, esquecido, lá estava, totalmente iluminado, ainda, com gomos de balões, todos brancos, rivalizando e reverberando luminosidade. Silêncio no terraço. Silêncio fora, naquela madrugada. A festa havia acabado.

         Festas nunca deveriam acabar. Por isso, aqueles banquetes imperiais duravam dias, às vezes meses a fio, como descreve o livro de Ester. Não adianta, o tempo devora as festas, sua razão de ser, sua motivação, sem contar o cansaço e o tédio. As festas se inserem no tempo e o calendário trabalha contra elas.

          Deveria haver festa para sempre e tudo ou qualquer coisa, fosse motivo, pretesto de festa. Um pouco assim mesmo, alma brasileira. Evidentemente, festas por legítimos motivos, pois caso houvesse dissimulação, subterfúgios, motivações fingidas, enfim, extinguem a verdadeira alegria.

        Passarinhos estão sempre em festa. Caso não haja alerta para predadores, estarão sempre cantando. Isso quando o canto já não é alerta de defesa. Plantas, vegetação de um modo geral, batidas por brisa, balançam em festa, gratas. Córregos chiam suas águas, serpenteando, roçando pedras, precipitando-se abaixo, em festa.

         Folga o dia em que tudo será e em permanente festa. Quando eu era criança, um dos pesadelos que me assaltava era meu esforço hercúleo em direção a uma festa, houvera sido convidado, o medo era que não alcançasse a tempo e se concretizava o temor: ao chegar, deparava somente os restos, acabara-se a festa.

         Jesus gostava de festa. Ele era festeiro. A Bíblia não menciona Jesus sorrindo (e nem dançando) mas, certamente, praticava os dois.
Aliás, acabou o vinho no casamento. Se Jesus fosse o moralista que desejam que fosse, um ranzinza, não poria em questão mais vinho para ainda maior regalo, mais festa, dança e alegria.

         Fico imaginando as gargalhadas de Jesus, como deveriam soar sonoras. Um piadista, o Mestre, não perdia uma chance. Aliás, de novo, aquele pastor Claudio Duarte, um festeiro, menciona algumas piadas de Jesus registradas na Bíblia, verdadeiras gozações, olhos de ver.

         Para ser festa, é necessário bom humor. Para ser sincero, sem justiça, além de não ser estabelecida a paz, não há festa que seja coerente, alegria genuinamente compartilhada.
Só o esgar de um falso riso ou uma gargalhada sinistra.

         O bem quer festa. O mal não a deseja. Ele quer a dor, a injustiça e o sofrimento. Por isso Mateus Evangelista registrou que Jesus vivia por andar por todos os cantos, curando, libertando os cativos pela maldade e ensinando sua filosofia da troca do ruim e do pecado pelo belo.

         Um festeiro, esse Jesus. Liberdade é sinônimo de festa, bom humor, uma boa comida e algum vinho. Temperado com justiça porque, como diz Tiago, em paz se semeia o fruto da justiça. E, sem ela, não há festa. Um festeiro, esse Jesus.

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