quinta-feira, 14 de abril de 2016

Mal traçadas linhas 19

O Salmo 139.

           Já leu? Então, releia.

           Tive uma professora no Seminário, Beth Bacon, de Língua Hebraica e Análise do Antigo Testamento. Ela sugeria que, ao lermos um livro da Bíblia, uma perícope ou unidade qualquer, fizéssemos de conta que não existia o restante do Livro, imaginando somente o que esse trecho, assim fatiado do todo, diz sobre Deus.

          É assim que vamos imaginar aqui este Salmo. Nele está escrito que Deus nos modelou, ainda substância informe, no ventre de nossa mãe. E fez isso escrevendo antecipadamente todos os nossos dias. Desejo me deter exatamente nessas duas afirmações: (1) desde ainda substância informe, celular e microscópica, somos - como diz Paulo Apóstolo - um poema de Deus; (2) não tão somente contente com isso, o Altíssimo também decide ser autor do restante dos dias.

            Mesmo para adeptos da evolução, isso é fantástico. É claro que a fé dos adeptos dessa teoria é diferente. Mas também absolutamente necessária e componente indispensável ao método. Sim, exatamente porque numa teoria não se têm todas as respostas. Faz-se suposição. E onde todas as respostas simplesmente não existem, o que não se sabe, coincide com a definição bíblica de fé: "certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se veem."

          Mas vamos voltar aos poemas e
 narrativas de Deus. Podemos chamar poema o ponto de partida de sua, minha, nossa vida, e narrativa a história de cada um. Evidentemente, puro equívoco interpretar este Salmo dizendo que Deus agenda e programa cada dia da vida de todo mundo, tudo já predeterminado. Não é isso.

          Mesmo que o salmista, autor deste antigo poema, tenha dito isso, de vez em quando (como dizia um outro meu professor, Manoel Porto Filho), os salmistas de Israel se enganavam.

           Em sua ocupação primordial, Deus compôs, meticulosa e individualmente, o poema desse encontro de células matrizes, trazendo dentro de si toda a complexidade genética que é o ser humano. Quanto a definir seus rumos no Jardim Paraíso que a terra já foi um dia, poesia seria o resultado da parceria Deus-homem.

         A história, a narrativa seria outra, caso houvesse parceria. A vida de quem tem com Deus parceria, diz o autor de Hebreus, faz aparecerem homens/mulheres dos quais o mundo não é digno.

         Esse autor anônimo radicalizou aqui, nesta afirmação. Mas eu o entendo. Quando olhamos à volta, no genérico, para o que ele, esse autor, chama mundo, não somos cegos: vemos múltiplas marcas de uma autoria que não tem Deus como parceiro.

         Definitivamente, o homem escolheu seguir carreira solo. Então, não me venha dizer que o que está aí é agenda de Deus, que foi predeterminado por Deus. Vemos as marcas da carreira solo do homem e, nesse meio em caos, traços de alguém que escolheu fazer com Deus parceria.

             Estes são aqueles que o tal anônimo autor aponta como homens/mulheres dos quais o mundo não é digno. Simplesmente porque esses homens e mulheres seguem tão anônimos como esse autor, porém deixando marcas que são notáveis, nos dois sentidos, admiráveis e nítidas de serem vistas.

           Mas não depertam interesse dos que se julgam donos do seu próprio destino. E estes são maioria. Também vão se tornando donos do destino de todos, usurpando para si o que deveria ser um bem comum. Isso é pecar contra, pelo menos, uma possibilidade de comunhão.

           Destaco aqui dois versículos dessa composição: o primeiro, v.14,  no qual o autor volta seus olhos para uma contemplação dessa obra singular de Deus, que é a tecitura da vida; o segundo, v.23-24, trecho em que esse mesmo autor pretende que Deus escreva, numa parceria com ele, os dias de sua historia.

        "Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem."

         "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno."

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