terça-feira, 6 de outubro de 2015

Estações na vida de Abraão


    O crente Abraão

            Em épocas de derrame de crentes, às vezes devemos até escrever "crentes", vale a pena relembrar o que a Bíblia tem a dizer sobre Abraão. Ele é o cara do Antigo Testamento mais citado nas páginas do Novo Testamento. Simples assim, crente, sem adjetivos. Aliás, é chamado de "o pai da fé", muito embora isso não significa imunidade, perfeição ou isenção de defeitos. Basta seguirmos suas estações, descritas lá no Gênesis, para identificar isso.

          Estações, porque nossa vida pode ser entendida desse modo, assim com-par-ti-men-ta-li-za-da. E há, na vida de Abraão, assim como em nossa própria, a possibilidade de fazer essa leitura. Isso permite, como que, organizar uma sequência, analisar nossa caminhada e nossa relação com Deus, assim como o Gênesis mostra em relação a Abraão. A cada etapa da vida dele vão corresponder, como muita similaridade, apenas fazendo a transposição de contexto e tempo, etapas semelhantes em nossa própria vida.

1. O chamado: para caminhar com Deus, começa-se pelo chamado. Nenhum homem possui, por natural e espontaneamente, intimidade, comunhão ou desejo de caminhar com Deus. Abraão, por exemplo, segundo mesmo lembra Josué em seu discurso (Josué 24:2), em seu contexto familiar, na época assim conhecido, era de uma família idólatra. Muito unida, verificamos isso quando,  por exemplo, tendo precocemente perdido Harã, o caçula, mudam-se de Ur, na Mesopotâmia, e vão residir numa terra a qual dão o nome de Harã (Gênesis 11:27-31). Ser unida era uma virtude, mas a idolatria era sua marca distintiva. Idolatria é escolher para si um deus de qualquer tradição e não atentar para o Deus único, real, existente e verdadeiro. Pois foi esse Deus único que chamou Abrão duas vezes, pois foi assim necessário, a primeira delas em Ur (Atos 7:2-4) e, posteriormente, em Harã (Gênesis 12:1-4).

        A Bíblia não demarca, com precisão e detalhes, quando se deu a conversão de Abraão ou quem o evangelizou. Mas demarca o chamado, que precisou ser duplo, para que Abraão se deslocasse no contexto de sua família para o lugar onde Deus desejava que ele se estabelecesse. Chamado de Deus significa o primeiro contato, quando a palavra de Deus chega a nós. Alguém também se interpõe entre nós e Deus, porque não existe fala com Deus sem mediação humana, pois Deus fala por meio de profetas (Amós 3:7).

Características deste tipo específico de chamado

        A história contada no Gênesis indica Deus, ao entardecer, procurando o casal, no jardim onde o colocara, para conversa íntima (Gênesis 3:8). Deus é amor, define João em sua 1ª carta (1 João 4:8). Ora, o que significa dizer isso? Significa que Deus não abre mão de Sua relação com o ser humano, homem ou mulher. Que os fez a Sua própria imagem e semelhança, homem e mulher os criou (Gênesis 1:27). Portanto, se Deus abrisse mão dessa relação, descaracterizaria a Si mesmo.

        Daí a essência do chamado de Deus: o desejo incontido de comunhão com o homem. Deus é amor significa, em essência, a necessidade de haver comunhão entre Ele e o homem. Aqui intervém Jesus Cristo, por causa do pecado. O Gênesis também explica o que é, em essência, o pecado: a inversão do padrão de Deus. A contradição da palavra de Deus resulta nessa degeneração. Deus disse ao homem: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." (Gênesis 2:17) Satanás disse à mulher: "É certo que não morrereis." (Gênesis 3:4). Daí passou o homem a dizer "sim", quando Deus diz "não" ou, ao inverso, dizer "não", quando Deus diz "sim".

          Por isso é necessário resgatar o homem de sua condição de rejeição a Deus e ao Seu chamado. Não é mais natural, ao homem ou à mulher, conversar com Deus na viração do dia (Gênesis 3:8). Então, Deus chama o homem para Si. Há uma promessa, expressa em Gênesis 3:15, que um mediador iria interpor-se entre Deus e o homem, anulando o efeito da rebeldia humana, caso o homem atenda ao chamado de Deus. Vencido seu conflito íntimo, de até mesmo negar que Deus exista ou que Sua palavra chegue a nós, o homem será capaz de ouvir a voz de Deus.

         O autor da carta aos Hebreus 1:1-4 indica o modo frequente como Deus falou ao longo das eras. E o modo definitivo e final como fala por meio de Jesus Cristo, seu Filho. A palavra de Deus chega ao homem por meio da Bíblia, voz dos que ouviram a voz de Deus ao longo do tempo. E torna-se possível ouvir a voz de Deus ainda agora, por meio daqueles que creem em Sua palavra. A história descrita na Bíblia é a história dos que ouviram a palavra de Deus e, ainda hoje, testemunham que a ouviram e que ainda pode ser ouvida. Atenda ao chamado da Palavra de Deus.
          

2. Abraão e seu altares: uma vez tendo pisado, pela primeira vez, na terra para onde Deus desejava que ele se deslocasse, Abraão edificou um altar (Gênesis 12:7). Uma vez dando uma primeira olhadela por ali, curtindo as belezas e o deslumbramento que a Palestina daquele tempo proporcionava, bastou para que edificasse um primeiro altar.

       Altar é lugar de contato com Deus. Esse tipo de edificação, no caso de Abraão, tratava-se de um amontoado de pedras rústicas, nas quais não era permitido manipular cinzel ou instrumento que as modelassem (Êxodo 20:25). Os povos que habitavam aquelas terras deveriam estranhar muito o despojamento de Abraão, em ajuntar pedras rústicas, invocar seu Deus, para logo dali se afastar e deixar o local, sem que se tornasse um local destacado, sacramentado, de algum modo considerado sagrado. Ficavam patentes algumas verdades: (1) Deus se afina muito bem com despojamento e simplicidade; (2) santo não é o lugar, mas a pessoa; (3) Deus não tem rosto nem imagem, pois Abraão não carregava consigo ídolo nenhum.

          Altar é símbolo do lugar de encontro entre Deus e o homem. Altar é lugar de oração. Também é lugar que representa expiação, que significa a necessidade de que haja mediação entre Deus e o homem. O pecado entranhado no homem o torna incompatível com a natureza divina. Mas o altar representa lugar de sacrifício pelo pecado, morte do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, que é a mediação e a expiação pelos nosso pecados.

            Qualquer religião depara com o problema do mal no ser humano. Pensa-se logo numa compensação. Pois não há compensação e nem há remédio. Não da parte do homem. E somente há pagamento pela culpa, ressarcimento do dano, quando Jesus se interpõe como preço e solução definitiva. A ressurreição em Cristo é compensação definitiva e cura definitiva do pecado. Mas ela só se dará uma vez que o homem morra em Cristo, seja batizado, unido a Cristo na morte de Cristo (Romanos 6:4), para que, na ressurreição em Cristo, seja expiada a culpa e renovada a vida eterna e definitiva. 

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